Precisamos de mais pessoas como Ayrton Senna – e como Rubens Barrichello também

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Toda vez que o primeiro de maio aponta na curva, torna-se inevitável recordar um dos maiores ídolos do esporte brasileiro em todos os tempos – considerando, aqui, não apenas a trajetória repleta de glórias, mas o desfecho trágico e heroico na pista de Ímola, o qual ajudou a forjar, no imaginário popular, a figura do piloto que fez questão de liderar uma prova de automobilismo  até a morte (literalmente).

Ayrton Senna da Silva: até o sobrenome ajudava neste processo de empatia e identificação que fazia nosso povo sentir-se vestindo o macacão de um dos mais audaciosos talentos do esporte a entrarem em um cockpit. As lágrimas derramadas naquela fatídica manhã de domingo revelaram que a tarefa do paulista sempre foi muito além de apenas acelerar; ele levava de carona, na verdade, um pouco de cada um de nós, o que fez com que todos no Brasil falecessem um cadinho contra o muro da tamburello.

Após sua bella morte (ato descrito pelos gregos como entregar a vida em prol de um ideal), todavia, restaria às próximas gerações de brasileiros no circuito de F-1 uma missão ingrata: substituir, no coração dos amantes da velocidade de nosso país, aquele que é insubstituível. A pressão por atingir o nível alcançado por Senna foi um fardo que carregaram todos aqueles que o sucederam, sendo que não lhes foi possível sequer triscar no legado daquele que até curva de autódromo batizada com seu nome fez por merecer.

Entre todos, porém, um deles, em especial, foi injustiçado além da conta: Rubens Barrichello, a estrela dos memes de atrasado na Internet. Tais brincadeiras demonstram muito da criatividade e do bom-humor de nossa gente, mas, ao mesmo tempo, deixam claro que não soubemos compreender diante dos fatos que, assim como na vida de pessoas comuns, nem todos nasceram para brilhar – e nem por isso a participação desses coadjuvantes deixa de ser relevante no contexto geral dos acontecimentos históricos. E todos nós, membros da sociedade, sejamos empreendedores ou simples trabalhadores, temos muito o que aprender com essa dicotomia entre esses dois importantes personagens do mundo do esportes.

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Ayrton Senna, para quem não usufruiu do privilégio de acompanhar sua carreira, era um ser humano dotado do mais puro espírito intrépido: correr riscos era algo tão natural quanto respirar para ele. Não por acaso, era conhecido como o “rei da chuva”, pois a cautela que geralmente acomete os pilotos quando de precipitação atmosférica durante as provas passava muito longe do brasileiro, que fazia os adversários comerem poeira (ou água) independente do clima.

Aliás, “beliscar a zebra” da pista, isto é, efetuar manobras fora do traçado utilizado pelos demais, aproveitando cada centímetro de asfalto para baixar seus tempos, era procedimento de rotina para ele, ainda que seu atrevimento pudesse lhe custar a perda de um “confortável” (não para ele) terceiro lugar no pódio eventualmente.

O homem do capacete com as cores da bandeira brazuca era, pois, um obcecado por vitórias, e conhecia a mecânica e a aerodinâmica dos carros que guiava como poucos. Como diz o provérbio, “o que engorda o boi é o olho do dono”, e o olhar clínico de Senna parecia aumentar a potência das máquinas que operava. Conseguia arrancar de carros inferiores uma velocidade inimaginável. Sempre em busca de proporcionar um bom espetáculo para os fãs, comprou briga até mesmo com os diretores da Federação Internacional de Automobilismo diversas vezes – especialmente quando cobrava melhores condições de segurança nas provas.

Não se comportava feito um cordeirinho nas competições (Alain Prost que o diga), e exigia de sua equipe sempre o máximo desempenho (in)possível; sendo o caso, não se furtava a trocar de escuderia, sempre visando melhorar sua performance. Colecionou algumas inimizades pelo caminho, muito por conta do gênio impetuoso característico, sua mania de correr com a faca entre os dentes.

Ganhou muito dinheiro praticando o esporte cuja imagem ele ajudou a elevar a níveis inéditos, beneficiando não somente aos envolvidos direta e indiretamente no circo da Fórmula 1, mas também todo e qualquer motorista de carros de passeio – uma vez que as novas tecnologias costumam ser testadas pelos pilotos profissionais e somente então produzidas em massa para o grande público a preços acessíveis (possibilitados pela redução do lucro na margem e seu correspondente aumento em escala). Por outro lado, costumava fazer vultuosas doações para ações de caridade sem explorar a potencial publicidade de tais atos, pois considerava que “só as doações anônimas possuem valor”.

Este olho de tigre de Senna e seu temperamento peculiar assemelhavam-se muito, portanto, ao comportamento exigido de um empresário, seja qual for a atividade econômica em que ele pretenda investir.

As qualidades listadas acima poderiam perfeitamente ser atribuídas, afinal de contas, a inúmeras pessoas que construíram riqueza gerando valor para os outros com seu trabalho, encarando riscos de altíssima monta, não se contentando com pouco, partindo para o “tudo ou nada” em vez de permanecerem estagnadas, metendo o dedo na cara de uns e outros quando preciso, e, ao final, ainda resolvendo compartilhar parte dos frutos de seu sucesso com os menos afortunados sem nem mesmo vangloriar-se disso (cite-se Bill Gates e Steve Jobs como exemplos típicos, dentre tantos outros menos ricos e tão generosos quanto).

Ou seja, indivíduos com esta gana de transformar 100 dólares em 1.000 são extremamente necessários para o progresso, o desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida de uma nação. A expressão “iniciativa privada” faz referência, justamente, àquele traço de caráter que leva alguém a empreender, à disposição natural para realizar projetos, ao ânimo pronto e enérgico para conceber e executar antes e melhor do que os outros, à visão além do comumente observado.

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Rubens Barrichello, a seu turno, poderia ser descrito como um excelente funcionário da F-1, daqueles que nunca faltam ao serviço ou chegam atrasados (sem ironias). Nunca desfrutou da chance de ser o protagonista em uma equipe de renome, e nem por isso alguma vez demonstrou raiva do piloto principal ou inveja do sucesso alheio. Estava mais para um líbero do voleibol do que para um atacante, mesmo em se tratando de uma modalidade esportiva individual.

Contentou-se boa parte da carreira em ser o carregador de piano do time, uma espécie de escudeiro de Michael Schumacher na Ferrari, contribuindo com alguns dos muitos títulos mundiais dele (como no episódio em que foi instruído pelo rádio, na reta final de um grande prêmio que liderava, a abrir passagem para o alemão, ao que atendeu prontamente). Dirigia de forma bastante conservadora, e rompantes de arrojo não compunham seu repertório.

Ainda assim, Rubinho também ganhou muito dinheiro, foi duas vezes vice-campeão mundial, também ajudou a desenvolver a categoria da qual fazia parte (afinal, nem só de craques pode ser feito um campeonato), sempre deu ótimos exemplos de ética profissional, auxiliou no aprimoramento dos carros de suas escuderias e doou parte do que amealhou para os mais necessitados.

E tudo isso porque deixou de lado o ego para pensar de forma prática: se a possibilidade de entrar para o panteão dos pilotos inesquecíveis não lhe pertencia, pelo menos a fama de disciplinado e bom empregado ele construiu – e foi regiamente recompensado por isso. Não à toa, tornou-se detentor do recorde de número de GPs disputados.

Duvido, pois, que Rubinho se arrependa de ter procedido desta forma, sem buscar ser o personagem principal o tempo todo. Não era de sua índole mesmo, assim como ocorre com a imensa maioria das pessoas: poucos nasceram para serem estrelas, para abrirem as próprias empresas, para assumirem a frente em suas atividades. Ainda assim, todos são úteis em alguma etapa do processo produtivo de que fazem parte, ainda que não sejam sua mola mestra.

Assim como fez Rubens Barrichello, não podemos perder de vista que aqueles que representam a engrenagem central dos sistemas, os Senna e Schumacher da vida real, não logram benefícios apenas para si próprios, mas para todos que os rodeiam – pelo que não é humilhação nenhuma reconhecer que um determinado colega de trabalho possui mais aptidão para gerência e apoiá-lo em suas tarefas, ou admirar a coragem e a obstinação do proprietário da empresa em que trabalhamos e dar o máximo em prol desta (com a devida contrapartida, claro).

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Os Sennas e Rubinhos precisam uns dos outros, portanto, sendo suas aptidões complementares entre si. A cooperação mútua pode levar ambos ao sucesso. O fracasso é o destino certo, no entanto, se os segundos não respeitarem a capacidade superior dos primeiros de erigir grandes impérios ou mesmo de administrar um mercadinho; ou se os primeiros desdenharem da relevância da atuação dos segundos em suas empreitadas.

Ou seja, a carcomida concepção de que o patrão “capitalista cruel” é o culpado por tudo de ruim que existe em nosso país não pode perdurar, nem tampouco a cultura de que o povão só quer saber de se dar bem sem trabalhar – mudança de mentalidade esta que já vem ocorrendo, conforme constatado por esta pesquisa. 

É possível, sim, elevar a produtividade nacional a ponto de que todos, por conta própria, possam lucrar; alguns mais, outros menos, conforme suas habilidades e meios disponíveis, mas cada um poderia, então, auferir uma renda que lhe permitisse uma vida digna e confortável. Como já acontece, por sinal, em todos os países permeados por mais liberdade econômica, e como sucedeu-se com Senna e Rubinho, os quais desempenharam seus diferentes papéis de forma integrada e condigna, sendo ambos gratificados por isso de formas distintas.

Este enredo das pistas, com certeza, pode repetir-se tendo como personagens o proprietário do prédio e o zelador, o dono do carrão e o seu Zé da oficina, e por aí vai. Não precisamos viver em um mundo de soma zero, no qual necessariamente o último colocado não pode alcançar uma condição satisfatória se não bancar o Dick Vigarista para cima do líder.

Aquele pode, inclusive, decidir tentar efetuar a ultrapassagem sobre esse porventura, mas, em um país mais livre, até mesmo o décimo lugar na chegada garante consideráveis pontos na tabela de classificação de qualidade de vida. E esta inversão de posições, em sendo almejada por quem está atrás na disputa (a denominada mobilidade social), será tanto mais fácil e provável quanto mais saudável for o ambiente de trocas voluntárias em que estivermos inseridos.

Por coincidência, Ayrton Senna morreu no dia internacional do trabalho, praticando o mesmo ofício de seu fã e amigo Rubens Barrichello – tão diferentes e tão importantes no que faziam, cada qual à sua maneira.

E para não correr o risco de ser tachado de “Rubinho atrasado”, faço esta homenagem  e presto reverências com bastante antecedência em relação a esta data, e direciono-as  tanto ao inolvidável campeão quanto ao ilustre e simpático coadjuvante – o qual, se não era um sobrenatural, não lhe faltavam afinco e sobriedade, assim como muitos brasileiros que conhecemos (os quais, se não possuem o dom do Rei Midas, são dotados de muita força de vontade e consideração pelos êxitos de outrem).

Em tempo: no ano de 2001, Nelson Piquet concedeu uma entrevista para a revista Istoé na qual afirmava que:

“O Rubinho é um fracassado”
O tricampeão mundial cria escuderia para emplacar o filho Nelsinho na Fórmula 1 e diz que Rubens Barrichello não tem força interior para ser um campeão

É…o tempo (e o fracasso retumbante de Nelsinho Piquet na F-1) encarregou-se de mostrar quem era o verdadeiro loser. Se “não tinha força interior para ser campeão”, acredito que os US$8 milhões anuais apenas de salário (sem contar as ações de marketing de que participou, incluindo algumas delas brincando com sua fama de atrasado) tenham ajudado a curar a “tristeza” do Rubão!

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4 comentários sobre “Precisamos de mais pessoas como Ayrton Senna – e como Rubens Barrichello também

  1. Lembro-me como se fosse hoje, aquela corrida no Brasil em que Senna ganhou contando apenas com a 2ª marcha e com a 6ª (aos mais novos, leiam a última sentença novamente e com atenção). No pódium, ele sequer levantar a taça, tamanha era fadiga de seus braços em controlar o carro. Os mais novos, acostumados com corridas de F-1 mais protocolares e câmbios automáticos talvez jamais entenderão o tamanho deste feito, que se fosse o único na carreira de Senna (excluindo títulos e tudo mais) já seria o suficiente para colocá-lo entre as lendas da F-1.

    E Rubinho foi sem dúvida o melhor piloto brasileiro da era pós-Senna.

    Sobre o texto, brilhante com sempre!

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    1. Esta corrida aí tem gente que até hoje alimenta teorias conspiratórias de que o câmbio do Senna não estaria quebrado, pois consideram impossível fazer o que ele fez. Impossível para os meros mortais. Abraço

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  2. Senna sabia que só os campeões são lembrados pela história. Ele tinha a vitória como filosofia de vida e pagou preço máximo por isso.

    Penso que a maioria de nós meros mortais não está disposta a arriscar tudo, como Senna fazia. No mundo dos negócios, para cada história de um empreendedor de sucesso, como Bill Gates e Steve Jobs, há milhares de histórias de pessoas que fracassaram, mesmo sendo tão competentes e brilhantes quanto eles.

    É verdade que poucos enxergam as oportunidades de “pegar um cavalo encilhado”, até porque a maioria de nós trabalha muito e não tem tempo para ganhar dinheiro, não temos foco e queremos ser iguais aos outros. Às vezes, não é medo do sucesso, é a velha necessidade de pertencer a um grupo.

    Agora, sobre ficar campeão, tirar segundo ou terceiro lugares, meu pai sempre dizia que “o time adversário também quer a vitória”. Então, se não ficarmos campeões dessa vez, o importante é não desistir!

    Abraços.

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    1. É isso aí, Arthur. Eu reconheço que sou uma espécie de Rubinho da vida: não tenho estômago nem o tino necessário para ser empresário ou CEO de uma grande companhia, e reconheço a importância das pessoas que possuem estas qualidades para a sociedade, bem como entendo que valorizá-las é benéfico tanto para mim quanto para os demais Rubinhos mundo afora. Abraço

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