“Hostiles and Calamities”: Eugene como metáfora da relação entre brasileiros e o Estado

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O 11º episódio da 7º temporada de The Walking Dead trouxe à baila um dos traços mais marcantes de nossa espécie: sua notável capacidade de adaptar-se a todo e qualquer ambiente na busca pela sobrevivência – ainda que passando por cima de certos preceitos morais. Em maior ou menor grau, todas as pessoas são capazes de moldar-se às circunstâncias a fim de usufruírem de uma melhor condição – ou apenas seguir respirando.

No seriado em questão, nenhum personagem representa melhor esta predisposição humana de engajar-se ao ambiente que o cerca conforme a necessidade do que Eugene, o rapaz medroso que só não vira comida de zumbi devido a seu altíssimo QI, que lhe possibilita convencer os demais da importância (às vezes questionável) de sua existência. E o que isso tem a ver com a cultura assistencialista dominante no Brasil, a qual contagia desde pessoas humildes até empresários? Vejamos, pois, mas adianto que há spoilers a partir do próximo parágrafo.

Em um mundo colapsado, surge um grupo de mafiosos autodenominados Os Salvadores, os quais confiscam tudo o que precisam (e o que bem entendem) dos indivíduos produtores, sob pena de imposição da força – a qual, diga-se, torna-se monopólio desta facção, visto que a primeira providência que adotam ao deparar-se com novos potenciais “protegidos” involuntariamente é, justamente, retirar-lhes todas as armas. Neste cenário, Eugene é sequestrado por esta turma a partir do momento em que Negan, seu líder supremo, descobre que ele é capaz de forjar balas de forma artesanal (uma habilidade altamente requisitada naquela conjuntura). Em seus primeiros momentos no covil dos vilões, Eugene está amedrontado como nunca, certo de que seus dias chegaram ao fim.

Qual não é sua surpresa, todavia, ao dar-se conta de que a vida do lado de lá poderia não ser tão ruim. Sentir-se protegido e prestigiado, poder jogar videogame e comer picles sem precisar trabalhar muito e correr riscos, retribuindo apenas com fidelidade canina e submetendo sua inteligência aos interesses do “movimento”: nada mal para quem estava racionando recursos extremamente escassos e embrenhando-se em aventuras errantes para obter itens básicos de subsistência há até bem pouco tempo.

Não pensem vocês, todavia, que Eugene é uma má pessoa. É fácil depreender da história que trata-se de alguém de bom coração. Seu maior crime, no entanto, é ser covarde – e não são raros os momentos nos quais seus confrades o rememoram disso. “You’re a coward” é a frase mais repetida em sua presença. E é justamente este sentimento de impotência que o induz a dobrar-se aos caprichos dos Salvadores, pois ele percebe que esta sensação vai-se embora assim que Negan o acolhe como novo braço direito. Não tarda muito, inclusive, para que Eugene comece a abusar do poder no qual foi investido.

O medo, portanto, torna-se um forte catalisador de novos recrutas, na medida em que estes sentem-se atraídos pela possibilidade de migrar da condição de oprimidos para opressores. Não por acaso, a tática de “quebrar o espírito” daqueles imbuídos de alma rebelde é recorrentemente utilizada por Negan, e poucos são os que conseguem seguir nadando contra sua mortífera maré.

E a questão que se impõe então é: seria mesmo justo considerar Eugene um traidor, um patife sem escrúpulos? Quantos de nós seríamos capazes de agir feito Rick, Michonne, Daryl ou Rosita e seguir demonstrando sua insatisfação com a situação? Quantos de nós, por outro lado, apenas baixaríamos a cabeça e sairíamos à busca de riquezas (gerando valor com nosso trabalho) para entregar quase sua totalidade para o coletor de impostos com um taco de baseball em mãos? E quantos de nós, por fim, concluiríamos que melhor mesmo é parar de carregar o piano e começar a estabelecer laços com o feitor?A resposta é mais evidente do que parece, pois o cotidiano em nosso país deixa muito claro que a vida imita a arte.

Primeiramente, o elemento caótico: o governo, sob o pretexto de viabilizar o bem-estar social, extorque os agentes econômicos, agiganta-se muito além do necessário, gasta muito mais do que arrecada, endivida-se além da conta, interfere na economia manipulando índices e o preço do capital de forma a transmitir informações erradas às cadeias produtivas, gerando, ao fim e ao cabo, inflação, juros e desemprego altos, em meio à violência de padrões sírios e a degradação de valores da sociedade. Quem vive no Brasil real (bem diferente da vida no Leblon e demais redutos da Esquerda Caviar) não precisa de zumbis querendo comer seu cérebro para sentir-se em meio ao juízo final.

Neste contexto, como reage nosso povo? Ora, como bem sabemos: as pessoas de mais baixa renda sonham com bolsas-família, cotas em universidades, subsídios para comprar uma casa de 50 m² e demais benesses estatais que mais parecem esmola; cidadãos de classe média almejam um cargo na administração pública, entupindo as salas de aula de cursos preparatórios para concursos; e empreendedores tornam-se avessos ao “livre” mercado nacional, preferindo pleitear, junto ao Estado, uma renúncia fiscal, um contrato de prestação de serviços, um protecionismo contra produtos estrangeiros¹, um empréstimo camarada do BNDES. Enfim, ninguém quer seguir remando a base de chibatadas, e todos querem subir para o convés – e de preferência trabalhar no gabinete do capitão.

E tudo isso é fruto do medo. Medo de ficar sem emprego. De não conseguir pôr comida na mesa da família. De ver sua empresa falir. Isto é, a partir do momento em que os tentáculos do Estado espalham-se por todo canto, voltar-se contra este soberano leviatã torna-se tarefa das mais árduas. Como servir de almoço para ele também não chega a ser uma opção atraente, melhor mesmo talvez seja virar seu amigo, pois não? Eis aí o roteiro que faz do brasileiro médio alguém tão chegado a buscar no aparato estatal a solução para seus problemas: se não pode vencê-lo, una-se a ele.

E, a partir deste momento, os perpetradores deste agigantamento governamental, o qual foi o estopim do processo de corrosão do tecido social, logram conquistar a justificação para continuar crescendo cada vez mais, retroalimentando este processo em que Eugenes (ou seja, pessoas dotadas de alto potencial e habilidades) migram para o setor público, deixando para trás a iniciativa privada, onde contribuíam com seu trabalho para conceber bens demandados pelos consumidores (só eu conheci duas pessoas que assim procederam apenas este ano); em que investidores deixam de criar vagas no mercado de trabalho passando a viver de renda, em face das dificuldades para empreender, ou piscam para algum político no intuito de burlar a concorrência (normalmente em prejuízo para os menos abastados); em que pessoas humildes passam a ver com status de Messias qualquer populista que lhes acene com umas migalhas do esbulho por ele praticado contra elas próprias.

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Uma vez cooptados pelo dark side, estes Eugenes tendem a levar adiante o legado de Negan, e o que se inicia unicamente por medo acaba por perpetuar e aprofundar um projeto de dominação e usurpação daqueles que ainda resistem à arbitrariedade do sistema e seguem, a duras penas, tentando sobreviver no setor privado, o qual se torna cada vez mais hostil e, por conseguinte, terreno fértil para que surjam novos Eugenes, em um ciclo infindável.

Andar pelas ruas de Cuba e indagar a transeuntes se estão felizes com o regime castrista fornece um bom exemplo de como é a vida dos moradores de Alexandria, do Reino e de Hilltop – comunidades que, no seriado, são sugadas e exploradas pelos Salvadores: ninguém tem coragem de responder não. O medo impera e permeia todas as relações sociais. Aliás, não poderia haver nome mais propício para este coletivo de supostos benfeitores da população, mas que só entregam em retorno mais caos e desordem.

Fás desta série, eventualmente, poderão aqui contestar que há chances de que Eugene esteja apenas querendo implodir o sistema por dentro, e para isso teria se deixado levar pelo inimigo e com ele estaria momentânea e convenientemente cooperando. Não é uma teoria irrealizável, mas seria pouco condizente com a vida real, onde pessoas como Marcelo Odebrecht alegam² que faturaram bilhões de reais porque se sentiram persuadidos pelo governo a participarem de esquemas ímprobos, e assim o fizeram por décadas a fio, sem mover uma palha para alterar o status quo. Pobre coitado: foi privado da chance de competir pelas preferência dos consumidores no livre comércio. Deveria ser indenizado, quem sabe.

Reverter este processo não será nada fácil. Ainda que hoje todos os zumbis desaparecessem na ficção, o cenário permaneceria inalterado, pois o estrago já foi feito. Da mesma forma, retirar países como a Venezuela do apocalipse chavista não será mais simples do que resgatar os chilenos soterrados na mina. O Brasil não anda muito longe de tal fadário, e nosso povo também precisará galgar paredes espinhosas para vencer as barreiras psíquicas  que o exortam a pedir mais governo em sua vida.

O medo transfigura-se em subserviência em um estalar de dedos. Corromper todas as bases do sistema de trocas voluntárias, transformando o mundo em um lugar pouco propício para que indivíduos possam livremente prosperar, é uma maneira deveras eficaz de semear tal sentimento. Ainda podemos contar, felizmente, tanto nesta produção televisiva quanto ao nosso redor, com pessoas que tentam, cada qual com seus métodos e sendo submetidas a retaliações diversas, incutir princípios e ideias encorajadoras naqueles que já experimentam o sofrimento a que foi submetido Eugene quando a civilização veio abaixo. Vale a pena atrever-se contra os Negans da política. Como bem ensinou Hershel Greene logo nos primórdios da saga:

Se você sair, você arriscará a sua vida. Se você bebe água, você arrisca sua vida. E hoje em dia, só de respirar, você já arrisca sua vida. A única coisa que você pode escolher é pelo que você irá arriscar-se.

Que tal arriscar-se a combater o medo generalizado de viver com menos governo então? Há um longo caminho pela frente a ser trilhado neste rumo, mas pelo menos contamos com um trunfo nesta batalha de convencimento de pessoas: podemos falar a verdade. E é por uma boa causa, pois, como já afirmado outrora por este escriba, o Estado precisa de Indiferentes, Fracos e Covardes para Alastrar-se Irrefreadamente. E os roteiristas deste seriado parecem endossar este entendimento…

¹ https://bordinburke.wordpress.com/2017/02/22/temer-nos-protege-de-cafe-bom-e-barato/

² http://rodrigoconstantino.com/artigos/eu-era-o-otario-do-governo-o-bobo-da-corte-diz-marcelo-odebrecht-em-delacao-que-coloca-lula-e-dilma-no-centro-do-crime/

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