Futebol, Concentrações e a Cultura Paternalista no Brasil

futebol

A corrente pausa em vigor no calendário do futebol brasileiro poderia servir para os amantes do esporte bretão refletirem a respeito de uma prática genuinamente brazuca, que não encontra eco em clubes europeus, e que retrata, em grande medida, nossa cultura de não individualização de responsabilidades: a malfadada “concentração” nas datas que antecedem jogos oficiais.

O procedimento de exigir que os atletas durmam na véspera e permaneçam as vinte e quatro horas que antecedem as partidas sob a supervisão da entidade esportiva seria justificado, em tese, pelo histórico de comportamento pouco profissional de nossos jogadores – incluindo no pacote bebida alcoólica, sono insuficiente e alimentação imprópria. Destarte, somente acorrentando-os ao pé da cama seria possível garantir que seu desempenho na partida venha a ser satisfatório – eis o receituário de “sucesso” de nossas agremiações.

Só faltou combinar com a realidade, uma vez que tal praxe administrativa dos clubes de futebol brasileiros não lhes garante um rendimento em campo melhor do que seus congêneres europeus – aliás, bem longe disso. No Velho Mundo, o expediente habitual consiste em determinar que os jogadores apresentem-se para os jogos tão somente algumas horas antes do apito inicial, permitindo que estes, entre a saída do último treino e o retorno para o estádio, façam o que bem entenderem de suas vidas, sendo-lhes cobrado, tão somente, que demonstrem durante os fatídicos noventa minutos que adotaram conduta condizente com sua profissão durante seu intervalo interjornada.

Ou seja, aos desportistas atuantes no continente europeu é conferida liberdade, sendo esperada, em retorno, responsabilidade – no sentido, inclusivo, de serem eles responsabilizados por seus atos, ficando sujeitos a pesadas sanções em caso de indisciplina que venha a repercutir dentro das quatro linhas ou que afete a imagem da instituição. Nossos clubes, a seu turno, preferem tratar seus jogadores como crianças imaturas que precisam de vigilância constante, sob o presumível risco de estes encherem a cara na balada e apresentarem-se sem condições para prática esportiva.

É claro que reproduzir esta rotina europeia no Brasil não seria tão fácil, visto que a Justiça do Trabalho costuma reverter suspensões de contrato (com desconto salarial) e demissões com justa causa com muita frequência. É recorrente atletas totalmente relapsos que são postos para treinar em separados obterem indenizações por “assédio moral” do empregador, inclusive. Coisas do nosso Judiciário e sua postura enviesada à esquerda.

Eis aí uma marcante coincidência deste hábito com a predileção de nosso povo pelo oneroso e paquidérmico Estado-babá, o qual, assim como a internação compulsória dos atletas supostamente irresponsáveis (até mesmo em extensos períodos de pré-temporada), também oferece, a preço de pesados tributos, uma aparente “proteção” a todos. E os custos de manter os boleiros longe dos suas casas e famílias não são baixos, e tal obrigação, normalmente, desagrada-os muito, afetando, visivelmente, suas performances.

Se tal costume fizesse mesmo sentido, seríamos obrigados a concluir, igualmente, que médicos deveriam ficar “concentrados” antes de uma cirurgia, da mesma forma que pilotos antes de um voo, ou parlamentares antes de uma votação importante. Haveria mais gente “concentrada” do que andando nas ruas, provavelmente.

Tal diferença na relação estabelecida entre contratantes e contratados cá e lá pode ser sentida quando da admissão de jogadores brasileiros em clubes europeus: estes, tão logo se dão conta da nova “política da empresa”, passam a portarem-se de forma muito mais séria e regrada – sendo, por isso, muito bem recompensados, inclusive com mais tempo de folga. E aqueles que assim não procedem costumam ser encaminhados de volta para a América do Sul – ou acabam indo parar no Catar ou em outros mercados incipientes do esporte.

Mas os clubes nacionais, como entes privados que são, não deveriam, a partir dos estímulos do próprio mercado em que estão inseridos, passar a agir feito seus concorrentes europeus, em busca de maior produtividade – leia-se: futebol mais vistoso e que atraia mais fãs para seu séquito de torcedores? Esta seria, pois, a atitude a ser esperada, não fosse o fato de que nossos times de futebol, assim como qualquer associação, não estão sujeitos à falência, conforme determina a Lei 11.101/05, art. 1º – inversamente ao que se observa na Europa, onde até mesmos clubes tradicionais, como a Fiorentina/Itália, já foram submetidos à execução concursal por parte de seus credores, e precisaram recomeçar do zero (da quarta divisão, no caso).

Aliás, este privilégio de não serem considerados pela legislação pátria como empresas é uma legítima jabuticaba usufruída por nossos clubes, pois até mesmos nossos vizinhos de continente permitem que seus times venham a falir – obrigando-os, de certa forma, a controlar seus gastos e a repensar seus métodos administrativos. Determinadas agremiações do Brasil ostentam dívidas superiores a meio bilhão, em meio a débitos fiscais e previdenciários, inclusive.

 Qualquer empresário, em tal estado de insolvência, já teria tido sua falência decretada judicialmente, mas este tratamento diferenciado confere aos clubes um caráter de isenção ímpar, e que abre as portas para a irresponsabilidade financeira completa e para a aplicação de metodologias de eficiência duvidosa – sem que ninguém responda por tal, gerando insegurança jurídica àqueles que negociam com estas instituições e forçando o Estado, eventualmente a perdoar dívidas (renunciando impostos devidos). Tal síndrome costuma acometer, por sinal, muitos de nossos governadores, os quais, tão logo findo seus mandatos, “rapam fora” e deixam a bomba na mão de seus sucessores, os quais precisam dirigir-se a Brasília com o pires na mão, e ainda dão-se ao direito de apontar-lhes o dedo tecendo críticas – confere, Tarso Genro?

A esta altura, alguém pode estar conjecturando que os nababescos salários dos jogadores de futebol deveriam justificar tantas horas à disposição do empregador. Acontece que a contrapartida do atleta para com que lhe remunera independe do tempo que ele passa “concentrado” na sede do clube, mas sim do quanto ele consegue render em campo. Se o atacante vai marcar mais gols se não ficar confinado, tanto melhor, pois é desta forma que ele trará retorno financeiro e agregará valor à imagem e à marca do clube. Tal lógica é adotada por empresas que permitem que seus empregados até mesmo joguem videogame e durmam durante o expediente, pois consideram que assim eles produzirão mais.

É bom ressaltar, ainda, esta ascensão meteórica das remunerações pagas aos futebolistas nos últimos trinta anos. Sabem por que os clubes pagam tanto hoje até mesmo para atletas medianos? Porque podem pagar. Simples assim. A evolução dos meios de transmissão dos jogos e de transporte (que permitiram a popularização do esporte a nível planetário) fez aumentar em muito as premiações recebidas pelas agremiações; desta forma, o “leilão” pelos atletas eleva as ofertas a níveis outrora inimagináveis. E é assim, também, que os salários dos trabalhadores ordinários do Brasil poderão, um dia, subir: quando a carga tributária permitir que as empresas possam remunerar melhor seus empregados. Mais simples ainda.

Acostumar nossos atletas com a liberdade, exigindo destes, em retorno, a consciência em relação a seus deveres, é uma terapia a que precisa ser submetido boa parte do povo brasileiro, na verdade, e não é de uma hora para outra que este cenário irá mudar. Mas quanto antes começarmos, melhor. Um adolescente que aprende a administrar sua mesada desde cedo tende a tornar-se um adulto mais consciente, mas é claro que, no começo, ele vai gastar tudo no primeiro dia, e somente a persistência dos pais em incutir-lhe o comprometimento em gerir com juízo aquele dinheiro surtirá efeitos positivos em seu amadurecimento.

No mesmo sentido, como são profissionais que atingem seu auge quando ainda muito jovens, os jogadores de futebol  precisam aprender logo cedo a ter responsabilidade e passar confiança ao time e ao treinador. E os clubes, ao invés de trancafiá-los como crianças, deveriam investir em sua formação não apenas como jogadores, mas como homens e cidadãos que são.

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Anúncios

2 comentários sobre “Futebol, Concentrações e a Cultura Paternalista no Brasil

  1. O Sport Club Internacional, recém rebaixado, tentou implantar a cultura de não-concentração na época do técnico Abel Braga, em sua última passagem, em 2014. O resultado prático não veio dentro das quatro linhas.

    Concordo com o cerne do texto. Porém, no Brasil, boleiro se acha acima de Deus. Se deixar, os caras entram em campo com chinelo de dedo e um copo de cerveja na mão. Isso se entram (sim, estou olhando para todos aqueles que forçam o terceiro cartão amarelo, inclusive para o ídolo colorado D’Alessandro).

    Acredito, assim como você, na cultura da liberdade e responsabilidade; mas no mundo futebolístico brasileiro, eu dou o braço à torcer. Aqui futebol é um micro universo à parte, com leis de causa e efeito próprias e uma dinâmica complexa e nem sempre equânime.

    Diversos clubes tentaram se “europeizar” (?). Assim de pronto: Internacional que buscou uma época aderir ao programa ISO 9000, São Paulo, que investiu em ações de marketing dignas de clubes ingleses, Flamengo que hoje está fazendo o básico com suas contas e se destacando por isso (o que, aliás, diz muito mais sobre os outros clubes, do que sobre o Flamengo, mas divago…), o Grêmio que buscou, após a Copa 2014, copiar o modelo de análise de rendimento do time da Alemanha, inclusive com a compra de um moderníssimo software. O que todas essas ações tiveram em comum? Todas elas, cedo ou tarde, acabaram sendo deixadas de lado, em prol de uma gestão mais “populista”. Ou ao menos, não foi dada a devida ênfase ao quanto isso poderia contribuir DENTRO do campo.

    Não sou fã de futebol, não acompanho campeonatos, mas entendo que tudo deveria começar com a privatização dos clubes. Só aí sentiríamos uma perene e real mudança nos paradigmas do futebol brasileiro. Podemos até nos calcar no brilhantismo individual que resplandece volta e meia, aqui e acolá. Estatisticamente, a cada ano surgem novos Neymares, Taffareis, e quiçá até um Denílson ou um Renato Gaúcho. Mas no geral, o que vemos são jogadores medianos, atuando em clubes endividados.

    No fim, o futebol nada mais é do que um reflexo do povo brasileiro.

    Curtir

    1. Bem por aí Leonardo. Para mudar de verdade essa cultura do boleiro brasileiro, teríamos que adotar o pacote completo de mudanças, transformando os clubes em empresas – que podem falir e ser compradas – e permitindo que os clubes demitam jogador “chinelinho” por justa causa mais facilmente – o que implicaria em uma mudança no entendimento do Judiciário; pra mim, esse Anderson, do Internacional, quando deu um soco no colega de trabalho no treino, já poderia/deveria ter sido mandado embora sem ver um único tostão. Abraço

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s