Estaria o povo brasileiro arrependido por ter apoiado o impeachment?

Se está, não deveria. Muito embora estejam postas as condições para que tal sentimento, eventualmente, brote naqueles que foram às ruas pedir a saída de Dilma – em português claro: Brasília continua registrando altíssimas temperaturas, em meio a um turbilhão de denúncias e acusações criminais –, cada passo dado na direção da higienização do setor público é dotado de incalculável relevância, e precisa ser dado ainda que implique em pisar em minas (explodindo esquemas de corrupção) vez por outra. Não há como pular fases neste lancinante e atrasado processo nacional de depuração institucional, e os sacrifícios exigidos da população neste ínterim podem até mesmo instigar o desejo por “soluções” pouco ortodoxas, de curto prazo e que implicariam na ruptura da ordem e do Estado de Direito – o pouco que nos restou e que ainda nos mantém em pé. Acreditem, não vale a pena.

Para aqueles que, ingenuamente, acreditaram que extrair o câncer petista da administração federal equivaleria a curar o enfermo de um dia para o outro, constatar que a metástase da corrupção segue devastando nossa sociedade e que a economia teima em patinar, pode fazê-los intuir, de fato, que o impeachment, obtido a duras penas, foi inútil. Daí para apelar à insurreição, ao levante popular, materializados na intervenção militar e na desobediência civil, é um pulo. Mas um pulo deveras arrojado e que pode resultar em uma queda no precipício da anarquia ou do absolutismo – e logo em um momento histórico sem precedentes em nossa democracia, onde figuras de alto relevo vem sendo encarceradas como nunca dantes visto.

Não se sai de um atoleiro como o que Lula e os desenvolvimentistas da Unicamp nos meteram sem que muitas providências sejam tomadas, postas em prática e comecem a surgir efeito. É de se esperar que os aproveitadores de plantão valham-se da oportunidade, claro, para provocar pânico e gerar dúvidas enquanto a lama ainda está em níveis perigosos. Mas esse desassossego pode ser apaziguado a partir de uma avaliação racional do saldo destes sete meses de afastamento da presidenta, donde é possível verificar que, aos trancos e barrancos, ainda estamos andando para frente, muito embora a turbulência do trajeto seja bastante desconfortável.

Aprovação do limite de gastos da União: Só por ter patrocinado esta alteração legislativa que ajudará a estancar a sangria indiscriminada de recursos extorquidos da atividade produtiva nos anos vindouros, Michel Temer já poderia ir para casa descansar, se quisesse – muito embora precisasse, provavelmente, passar em Curitiba no caminho e prestar alguns esclarecimentos à Lavajato em breve. Apesar de representar tão somente o prólogo da imprescindível austeridade fiscal, este legado poderá reduzir, de forma sustentável, a inflação e a taxa básica de juros, bem como estimular investimentos privados e gerar empregos. Além de ter o condão, claro, de fazer o Estado brasileiro parar de tratar o Orçamento Público como uma mera peça de ficção, e obrigá-lo a alocar com racionalidade os recursos escassos cobrados dos cidadãos.

A Previdência Social passará por mudanças: Se você é daqueles que acreditou em algum dos “estudos” que circulam pela internet dando conta de que o déficit da Previdência “no ecxiste”, deve estar bem irritado com a proposta de reforma encaminhada ao Congresso Nacional. Mas recomendo contar até dez, respirar fundo e lidar com a realidade: nosso destino é virarmos uma Grécia na América do Sul (sem o Banco Central Europeu para nos socorrer) se nada for feito a respeito. O que se pode questionar é a forma com que o problema está sendo enfrentado, mas mudanças no projeto de lei certamente ocorrerão no decorrer do processo legislativo. Não se trata de uma reformulação perfeita, mas sem ela não haverá como reconquistar a estabilidade financeira perdida nos últimos anos. Se ainda não estamos maduros o suficiente para implantarmos um sistema de fundos individuais, tal qual o Chile adota há décadas, que pelo menos se evite a falência do Estado a partir do iminente envelhecimento de nossa população, porque quem vai pagar a conta, para não variar, serão os mais pobres que dele dependem.

Há perspectiva de alterações na legislação trabalhista: Uma das maiores causas do aumento do mercado de trabalho informal e do alto número de empregados sem registro em carteira de trabalho está prestes a ser atacada: a estanqueidade das leis trabalhistas e a impossibilidade de acordos coletivos, celebrados entre empregadores e empregados, prevalecerem sobre a lei laboral em sentido estrito, em tempos de crise econômica. E é óbvio que o PT jamais desagradaria seus sindicalistas apaniguados propondo esta evolução nas arcaicas relações de emprego que perduram desde a época do ditador Vargas.

Benefícios do Bolsa-Família e Auxílio-Doença estão sendo auditados: Acabou, aparentemente, a farra dos benefícios sociais indevidos. Dezenas de milhares de auxílios-doença e bolsa-família foram cortados por constituírem fraude contra a União – e olhe que esta “limpa” está apenas em um estágio incipiente ainda.

Cessou o fomento com dinheiro público a websites esquerdistas: Verdadeiros folhetos dos partidos de Esquerda, estas páginas viram minguar o apoio estatal após o advento do governo “golpista”. Ainda está pendente uma boa faxina nos benefícios da Lei Rouanet, que deve ocorrer em breve, e também nos repasses a UNE, ambos por meio de CPI, mas já dá pra sonhar com o dinheiro dos impostos parando de ir para o bolso daqueles que fazem propaganda explícita de seus financiadores e servem de verdadeiros soldados intocáveis pela polícia, como no caso das “ocupações” das escolas e universidades.

carta

Reforma do Ensino Médio: Por falar em escolas, já havia passado da hora de mudar o cenário da Educação no Brasil, e as mudanças propostas, especialmente no tocante a permitir que o próprio aluno monte parte de sua grade de disciplinas, conforme suas propensões pessoais, constituem um importante avanço no sentido de deixar a lanterna dos exames do PISA. Pela grita promovida por entidades de classe de professores militantes Brasil afora, fica fácil inferir se, algum dia, o PT seria capaz de implantar este novo modelo.

Privatizações e Concessões: Há previsão de que, até 2018, ocorram 34 leilões de concessões e privatizações, incluindo ativas em rodovias, ferrovias, terminais portuários, mineração, geração e distribuição de energia e saneamento básico. Claro que poderíamos ir muito além e transferir para a iniciativa privada toda e qualquer atividade produtiva que por ela pudesse ser desenvolvida – e aí entrariam, claro, A Petrobrás e dezenas de estatais criadas nos últimos anos, que representam prejuízos bilionários para os cofres públicos. Ademais, tirando a moeda de troca da mão dos políticos, a corrupção tenderia a ser reduzida.

O PT Jamais reduziria o escopo da atuação do Estado: Todas as medidas acima elencadas, que estão sendo tocadas pelo governo de Michel Temer, especialmente aquelas que implicam, direta ou indiretamente, em redução do aparato estatal, jamais seriam postas em prática pelo PT. Sua mentalidade estatizante e intervencionista jamais permitiria que o leviatã governamental fosse reduzido de forma significativa. O PMDB, diferentemente, muito embora não professe uma visão liberal, ao perceber o tamanho do rombo do orçamento federal, tratou de pôr em prática um ajuste fiscal – muito menos por ideologia e muito mais por necessidade.

A Lavajato segue a pleno vapor: E para quem achava que o PMDB, principal expoente do Petrolão ao lado do PT, conseguiria, fazendo uso do poder amealhado com a ascensão de Temer ao posto de presidente, barrar a Lavajato, aí está: muitas figuras importantes do partido estão vendo desnudadas suas operações ilícitas com as grandes empreiteiras do país, e a prisão de muitos deles é mera questão de tempo. Vão espernear o quanto puderem, tal qual fizeram seus comparsas de chapa petistas, desesperados ante ao impeachment e a decorrente perda do foro privilegiado, mas serão encarcerados, ao devido tempo, junto a Eduardo Cunha e Sérgio Cabral. E Lula, com certeza.

rj

O TSE pode cassar a chapa Dilma/Temer: Ficou para 2017 o julgamento das ações que podem cassar a chapa por meio da qual Michel Temer foi eleito vice-presidente de Dilma. Tendo em conta as revelações da Odebrecht em sede de delação premiada, dificilmente o entendimento de que seria possível julgar em separado as contas de PT e PMDB poderá salvar o mandado de Temer, visto que está ficando muito claro que sua eleição foi turbinada com propina oriunda do PMDB também. Ou seja, tudo está seguindo seu curso, e, se for o caso, teremos um presidente tampão até 2018, eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Isso tudo porque, diferentemente do que muitos afirmavam, o presidente em exercício não está blindado contra a justiça, e pode, sim, perder o cargo e até mesmo responder a processo criminal na primeira instância. Se isso ocorrer mesmo, tenham certeza que não veremos manifestações bancadas com imposto sindical nas ruas, clamando contra outro suposto “golpe”.  Se for o caso, ficaremos de olho em que irá ocupar a presidência até 2018, mas jamais daremos guarida a corruptos, como uns e outros por aí.

 joaquim

Há chances de Liberais e Conservadores vencerem em 2018: Outro motivo para não se desesperar com o cenário político atual é que, justamente em razão do descrédito da classe política provocado pelos escândalos sucessivos, está aberto o caminho para algo que nunca pudemos experimentar em nossa história nacional, e a cidade de São Paulo poderá testar a partir de janeiro de 2017. Sim, é possível que, tal qual os paulistas puseram João Dória na prefeitura, animados com o prometido e necessário enxugamento da máquina estatal, os brasileiros deixem de lado, ainda que momentaneamente, rótulos como “neoliberais” e deem uma chance de verdade àqueles que podem, de fato, por nosso país nos trilhos e permitir que nosso povo prospere. A renovação da elite política do Brasil é iminente.

Assembleia constituinte com ESTES políticos aí? Não sei se seria recomendável, como muitos reivindicam, instaurar uma nova assembleia constituinte, em meio a este turbilhão de deputados e senadores prestes a ter a liberdade cerceada pelo Judiciário. Vejam a aberração em que se transformou o projeto de lei das 10 medidas contra a corrupção (que pode vir a ser um grande tiro no pé daqueles que pretendiam moralizar a administração pública), e pensem duas vezes a respeito. Nossa Carta Magna, muito embora eivada de obstáculos aos desenvolvimento do país, fruto da grande protagonismo da esquerda brasileiro em sua elaboração, possui muitos artigos que não podem ser removidos nem mesmo por proposta de emenda constitucional (as chamadas cláusulas pétreas), e que, em caso de nova assembleia constituinte, poderiam perfeitamente ser inteiramente reformuladas. Será que é isso mesmo que queremos neste momento.

Nosso sistema político está falido? Bom, pelos menos em recuperação judicial, certamente está. Quem mandou ficar tanto tempo só no samba, futebol e cerveja, não é, Brasil? Acabou acumulando tudo para agora. Mas jogar tudo para o alto e correr com tochas na mão na direção da praça dos três poderes não resolverá o caos. A estrutura institucional não dá mais conta de abarcar os anseios de nosso povo, e por isso é necessário mudar, mas não por meio de artifícios que somente irão gerar problemas ainda maiores ali na frente. A tempestade de acontecimentos recentes é tão forte que o brasileiro parece não mais enxergar para onde está indo, mas não tenha dúvidas: estamos indo para frente, sim, muito embora o caminho seja íngreme e cheio de espinhos, fruto de décadas permeadas por muita impunidade e populistas demagogos, que, finalmente, estão sentindo o gosto amargo da indignação do nosso sofrido povo.

Depois da tempestade vem a bonança. Se resistirmos ao empuxo desta revolução, colheremos seus frutos muito em breve. Por ora, é tempo de seguir remando e de resistir às tentações das soluções fáceis e simplistas. No pain no gain.

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6 comentários sobre “Estaria o povo brasileiro arrependido por ter apoiado o impeachment?

  1. Estou longe de achar o Governo Temer uma maravilha, mas com Dilma seria muito pior. Talvez já tivéssemos colapsado. Outro aspecto a ser considerado – ainda mais importante, aliás – é que o PT tinha um projeto de poder totalitário, que passava (vinha passando) pelo aparelhamento do Estado e de boa parte da sociedade civil. O caso Carta-Odebrecht é um exemplo; os blogueiros pendurados na TV Brasil, outro.
    Um abraço.

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    1. Tem toda razão Alexandre. O Foro de SP estava usando nosso dinheiro para bancar ditaduras comunistas mundo afora. Mas como muita gente desavisavizada ainda acha que isso é “teoria da conspiração”, deixei de lado por ora. Abraço

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  2. Ingênuo quem achou que o PMDB, assumindo o poder, não lutaria para livrar os seus das garras da Lava-jato. Da mesma forma como o PT tentou fazer (lembram do Lula na Casa Civil?), e da mesma forma como PSDB, PP, PDT, PTB e qualquer outro partido também o faria. Ilusão quem pensou diferente.

    Com o PT seria pior? Provavelmente. Porém, esse fôlego que a economia ganhou nesse período de lua-de-mel com o novo governo, fez bem a todos. Mas isso não é, nem de longe, mérito de Temer ou do PMDB como muitos querem fazer crer; é, antes, demérito do PT que por diversas razões, perdeu credibilidade. É como aquela mãe que fica feliz, não pela nova namorada do filho, mas por ele ter terminado com a antiga que era uma megera…

    Mas, creio, que de tudo ainda podemos nos orgulhar: hoje a maioria dos brasileiros se interessa por política e tem uma nova concepção sobre o tema. Acho que se seguirmos essa tendência, em algumas poucas gerações começaremos a ver uma mudança mais significativa na política brasileira.

    Até lá, que Deus nos ajude…

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  3. Mas é mais que óbvio que o Petismo se utiliza de técnicas das mais brilhantes de publicidade…

    Petista apenas & só se preocupa com PSDB e outras ASNEIRAS. Que amor enrustido! Só fala a toda hora e minuto sobre PSDB etc.

    Mas petista nem se lembram do PeTê mesmo… Vejam um único exemplo bem simples:

    ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
    A Semiótica do Coração Valente
    ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

    Mas quanto a tudo isso o que importa é a publicidade & a propaganda, somada com a baranguice — tal qual Dilma. Eis:

    Grave mesmo é isso aqui:

    GOLPE e «CORAÇÃO VALENTE»:

    São clichês publicitários elaborados por 1 publicitário! Tal qual o preso milionário JOÃO SANTANA (o “Feira”…). São tais quais a frase publicitária de iogurte da DANONE, assim, veja:
    «DANONINHO VALE POR 1 BIFINHO». [ou: “CVC pensando em você”].

    Nunca jamais houve GOLPE; assim como DANONINHO jamais VALE POR 1 BIFINHO… E o slogan petista “Coração Valente” é uma frase feliz em termos publicitários (fazer a cabeça via mitologia), mas de um vigarismo extraordinário.

    [e reparem.., tudo isso tem a ver com Educação grosseira do Governo Petista. A pior da América inteira].

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