Alunos de Humanidades são beneficiários diretos do Livre Mercado – e seria bom alguém avisá-los…

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Estudantes de cursos de Humanas são, tradicionalmente, os mais inclinados à Esquerda em qualquer instituição de ensino superior. Frequentar aulas de uma faculdade de Letras, por exemplo – seja em estabelecimento privado ou público –, implica em testemunhar demonstrações diárias e constantes desta deveras ilógica devoção, por meio da qual os maiores (supostos) interessados no avanço do capitalismo pregam a favor do agigantamento do Estado, sempre em nome do “social”.

Este contrassenso resta evidente a partir de uma análise elementar dos fatores que, conforme demonstra a experiência prática, permitem uma maior participação destes profissionais no mercado de trabalho, e torna-se forçoso concluir, pois, que as políticas públicas amparadas por estes jovens, notadamente em manifestações e protestos recentes, representam, em verdade, graves empecilhos para o desempenho de suas atividades após a graduação.

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Senão vejamos: um dado indivíduo precisa escolher entre comprar um livro, matricular-se em uma escola de italiano, adquirir tickets para o teatro ou comprar feijão e arroz para pôr na mesa da família. Não se faz necessária muita elucubração para antecipar como esse sujeito irá proceder – se tiver algum juízo, claro. O ser humano, portanto, necessita, em primeiro lugar, manter-se vivo e respirando; em seguida, ele passa a consumir, na medida do possível, itens de importância secundária – e aqui entra (dentre diversos outros segmentos cujo valor gerado podemos considerar como prescindível) toda a indústria do entretenimento, incluindo teatro, cinema, literatura, televisão, viagens, e por aí vai.

Ou seja, para que as pessoas busquem o produto ofertado por uma infindável gama de atividades econômicas sem as quais é possível subsistir (é o caso de boa parte das Ciências Humanas), faz-se necessário que, primeiramente, elas possam garantir suas provisões mais básicas, pois, aí sim, elas estarão em condições de partir em busca daquilo que nos difere dos demais seres vivos: a possibilidade de fazer de nossas vidas algo mais do que simplesmente sobreviver por mais um dia. Apreciar um quadro ou presenciar uma apresentação da orquestra sinfônica são atos que provocam a denominada “fruição estética”, ou, simplesmente, prazer. Mas sentir prazer sem emprego nem sempre é tarefa das mais fáceis.

Dentre deste contexto, a revolução industrial entrou como um divisor de águas, pois a partir da concepção das linhas de montagem e do emprego de novos métodos de produção mais eficientes pelos agentes privados, foi possível passar a oferecer bens das mais diversas naturezas a preços minorados – donde se incluem, também, os alimentos e outros itens de primeira necessidade (inclusive construção de moradias). O comércio globalizado (possibilitado, principalmente, pela evolução dos meios de transporte e comunicação) também contribuiu em muito para reduzir períodos de carestia em diversas partes do planeta, e propiciar ao homem médio, destarte, mais recursos remanescentes de sua renda para investimento em recreação.

A contrario sensu, os episódios nos quais a produção de alimentos foi avocada pelos governantes redundou em milhões de mortes por inanição, tal como sucedeu-se na China de Mao Tsé-Tung e na Etiópia de Mengistu Haile Mariam. Dinheiro para lazer nestes infelizes lugares? Façam-me o favor.

A evolução dos meios de transporte e comunicação, aliás, também possibilitou que povos de diferentes partes do globo passassem a compartilhar seus traços culturais, contribuindo, assim, para reduzir o isolamento de vários deles. Se hoje pessoas de todo canto no planeta podem, por exemplo, ouvir músicas de seu artista favorito muito facilmente pelo Itunes ou até mesmo sonhar em viajar e acompanhar sua turnê, é porque investidores da aviação e da telefonia, ávidos por lucros, empreenderam nestas áreas – e seria ainda melhor para os consumidores se as agências reguladoras, com suas barreiras para entrada de novos investidores, não criassem e protegessem verdadeiros cartéis nestas atividades econômicas.

Sólidas evidências destas constatações revelam-se em momentos de recessão econômica, como o que atravessamos no Brasil desde o estouro da bolha gerada pelo populismo Lulopetista. Diante do endividamento crescente das famílias, é natural que estas abandonem certos hábitos dos tempos de fartura (proporcionada artificialmente com a adoção de métodos Keneysianos¹), que passam a constituir verdadeiros luxos diante do quadro atual. Comprar ingressos para o show daquele artista que tanto bradava contra o “neoliberalismo” em seus tempos de acadêmico torna-se, assim, inviável, bem como muitos outros costumes que precisam ser revistos ou até mesmo cortados da rotina dos cidadãos afetados pela crise financeira.

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Pergunte-se, por um instante, quem estaria em melhores condições de frequentar galerias de arte: o faminto povo venezuelano (cuja taxa de mortalidade infantil já superou os números da Síria tomada pela guerra civil há cinco anos), ou os chilenos – que usufruem dos melhores índices de desenvolvimento humano da América do Sul, incluindo mais alta renda per capita, fruto das bases institucionais implantadas e reformas promovidas pelos “Chicago boys” ainda na década de 1980²? E não vale, no caso, comprar obras de arte para lavar dinheiro desviado no Petrolão, hein? Para refletir, pessoal de Humanas…

Constatação similar pode ser feita quando se observa o comportamento da população de países onde a produtividade marginal do trabalho³ é bastante superior à brasileira, como a Alemanha. Como um trabalhador germânico consegue gerar a mesma quantidade de valor que seu congênere brasileiro em muito menos tempo (já que os bens de capital naquele país estão em estágio bem mais avançado), ele dispõe de mais tempo e capital para tomar sua cerveja (em copo de 1 litro) ou para assistir ao jogo do Bayern de Munique. Ou para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Ou para comprar o que ofertam os investidores do ramo de Humanidades, pois não?

Um dos desdobramentos da atual conjuntura nacional é que, diante da dificuldade em arregimentar fãs para suas produções culturais em períodos adversos como o corrente – e, consequentemente, da carência de patrocinadores interessados –, aumenta a fila de pretendentes ao financiamento estatal, positivado por meio de legislações como a Lei Rouanet, Lei do Audiovisual, e outras da espécie. Em 2015, o valor de tributos renunciados pela União para subsidiar apresentações artísticas superou um bilhão de reais, sendo parcela substancial desta verba destinada a obras de gosto duvidoso – pra dizer o mínimo – que jamais seriam eleitas pelo público, com suas escolhas subjetivas, para sobressaírem-se naquele setor. Tal situação prejudica, em muito, o aprimoramento da indústria da cultura em nosso país (precisamente ao contrário do que propõem, em tese, tais iniciativas governamentais).

No mesmo sentido, o Estado, diante da penúria dos cidadãos (causada por ele próprio, em virtude da tributação desmesurada e do endividamento que gera inflação, combinados com juros altos e desemprego), apresenta como medida paliativa a famigerada meia-entrada, concebida para que estudantes e outros beneficiários (e futuros eleitores) escolhidos a dedo possam “adquirir cultura” – ainda que isso signifique integrar a platéia de um show da Valesca Popozuda. O problema é que, para não arcar com o prejuízo (já que não há almoço nem meio ingresso grátis), as empresas do ramo majoram o preço cobrado dos demais clientes não agraciados com descontos legais.

Com essa elevação do patamar do custo médio para ir, por exemplo, ao cinema, é comum que, após perder o direito ao privilégio, muita gente acabe apelando para a confecção de carteiras de estudante falsas ou mesmo pare de ir ao cinema, passando tal expediente longe, assim, de resolver o problema, e criando um ciclo contínuo em que cada vez mais pessoas demandam isenção em eventos culturais.

 A regra básica, portanto, é essa: quanto mais riqueza circulando na mão do Estado, menos dinheiro na mão da população, e menos recursos privados para qualquer atração cultural – seja para realizá-la, seja para prestigiá-la. É claro que o Estado, benevolente como sempre, vai se oferecer para, aos poucos, bancar tudo “ele mesmo”, apenas pedindo em troca que jamais valores conservadores ou liberais sejam enaltecidos aos olhos dos expectadores, ouvinte ou leitores. Para que correr o risco de deturpar este processo tão salutar (para meia dúzia de apaniguados), não é mesmo? Anote e não esqueça, camarada de Humanidades: Estado mais enxuto, menos impostos, pessoas com mais dinheiro no bolso para gastar em atividades lúdicas, mais potenciais clientes para o seu trabalho.

Na década de 1980, os Titãs popularizaram uma música cujo refrão afirmava que “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Ainda bem que eles admitem que comida vem antes de todo o restante. E esse restante só será acessível ao público em geral se ele parar de ser extorquido ostensivamente do fruto de seu trabalho pelos membros dos esquemas perversos do “capitalismo de quadrilhas” que foi implantado no Brasil. A corrupção, diferente do que o senso comum pode induzir a acreditar, não é um problema original, mas sim um sintoma derivado de outro problema muito maior: o Estado paquidérmico que intervém na economia e arroga-se poder (com nossa concordância, inclusive) para interferir em todos os aspectos de nossas vidas, criando dificuldades para vender facilidades – e gerando reservas de mercado formadas somente por aqueles escolhidos para serem ricos. Fernando Cavendish e Sérgio Cabral estão com as orelhas ardendo a esta hora, por certo.

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E até mesmo os cursos de Humanidades cujo profissionais oferecem serviços de utilidade mais palpável, como Administração, Relações Internacionais, Direito e Psicologia, também lograriam benefícios se posicionassem-se, da mesma forma, ao lado do livre mercado, pois atividade econômica aquecida significa mais empresas para administrar, mais contratos para celebrar, mais exportações para serem operacionalizadas, mais pessoas preocupadas com sua saúde mental (já que a subsistência está garantida).

Jornalismo? Bom, aí o buraco é mais embaixo, e este tema foi abordado neste artigo. Em linhas gerais, todavia, é possível concluir que, diferentemente do médico e do engenheiro civil (as pessoas, afinal, sempre precisarão realizar consultas e construir suas casas), o escritor e o ator só sobrevivem se, em primeiro lugar, a sobrevivência dos seus eventuais fregueses estiver assegurada. Por mais que eles gostem de uma boa peça ou ler um bom livro, um teto sobre suas cabeças e um tratamento contra a enfermidade que os assola e às suas famílias vai figurar, inevitavelmente, em posição privilegiada no rol de importância atribuída por estes indivíduos.

Isto é uma realidade inerentemente HUMANA – sem o perdão do trocadilho. Quer que as pessoas desenvolvam o desapego pelo “vil metal”? Ajudemo-las, pois, a superar a mais comezinha das aspirações humanas (continuar vivendo, e com dignidade, se possível), e elas naturalmente passarão a valorar bem mais as atividades prazenteiras das mais diversas naturezas. Neste intuito, em vez de clamar por mais bolsa-família e assistencialismo, contribua para que o Brasil possa vir a melhorar sua vergonhosa 122º posição no ranking da Heritage Foundation, especialmente não votando em candidatos com perfil estatizante. Fiquemos de olho no desempenho dos prefeitos de São Paulo e Porto Alegre nos próximos quatro anos, pois o alinhamento com o ideário liberal deve render bons resultados em suas administrações, e, quem sabe, a partir de 2019, todo o Brasil possa seguir neste rumo.

A liberdade econômica pode ajudar, destarte, as Humanidades a saltarem vários degraus neste índice de primazia dos seres humanos, até mesmo na medida em que a tecnologia barateia e facilita o acesso a livros (e-books), filmes (serviços de streaming) e apresentações artísticas (Youtube). Só que tais inovações não são resultado de inspirações socialistas, companheiros. Muito pelo contrário, aliás. Até mesmo eletricidade para acender uma luz para ler à noite é artigo escasso em certos rincões da Terra com pouco apreço pela autonomia de seus cidadãos…

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¹https://bordinburke.wordpress.com/2016/09/22/bndes-keynes-pt-eike-capitalismo-de-lacos-e-cadeia/

² https://www.institutoliberal.org.br/blog/o-chile-e-sua-aula-de-liberdade-economica/

³ https://www.institutoliberal.org.br/blog/o-mito-da-exploracao-i-a-produtividade-marginal/

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O Inimigo do meu Inimigo nem sempre é meu Amigo. Ou: Intervenção Militar? Não, Obrigado!

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O embaixador dos Estados Unidos no Brasil no início dos anos 1960, Lincoln Gordon, teria premeditado a John F. Kennedy que, caso a esquerda lograsse sucesso em sua ambicionada “revolução do proletariado”, nosso país não seria uma nova Cuba, mas sim uma China em pleno hemisfério Ocidental, dadas as dimensões do país e a capacidade que este teria para alimentar o movimento marxista mundo afora – como o PT acabou fazendo, mais tarde, com o auxílio de grandes empreiteiras e outros capitalistas de Estado, mandando dinheiro de nossos pagadores de impostos para ditaduras socialistas, conforme já previam as diretrizes do abjeto Foro de São Paulo.

E é por cobrir de razão o diplomata americano neste episódio que acredito que todo brasileiro deveria, ao menos uma vez na vida, agradecer ostensivamente aos servidores públicos que usam verde-oliva. Em um período no qual guerrilhas e atentados pipocavam por todo lado, sequestros e bombas incorporavam-se à rotina brasileira, e a escalada do comunismo parecia irrefreável, o maior projeto já montado pela esquerda na América foi derrocado de forma contundente, atendendo ao clamor popular de milhões de cidadãos apreensivos com o avanço vermelho, e sem baixas consideráveis (que se pudessem lamentar, ao menos). É verdade que a guerra de narrativas, travada especialmente nas universidades, eles perderam de lavada, mas convenhamos que, trinta anos depois da redemocratização, ainda não conseguimos propiciar a nossos estudantes uma escola sem partido – o que deixa claro, portanto, que esta é tarefa das mais complicadas.

E é por entender o papel crucial das forças armadas neste relevante capítulo de nossa história que recomendo a todos – especialmente aos afobados que invadiram a Câmara dos Deputados ontem, pedindo intervenção militar uma vez mais: não atirem com uma bazuca contra um inimigo raquítico e armado de canivete, dentro de uma sala fechada de dez metros quadrados. O resultado pode surpreender negativamente o deflagrador da arma…

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Será mesmo que há necessidade, no atual cenário, de invocar o artigo 142 da carta magna, cuja redação determina que às forças armadas cabe garantir a lei e da ordem? Este comando constitucional, passível de inúmeras interpretações e enquadramentos, tal a subjetividade de seus termos, deveria ser empregado de forma restritiva, ou seja, tão somente como último e derradeiro recurso, quando restasse pouca ou nenhuma esperança de resolução de um grave conflito de abrangência nacional e que ponha em risco o próprio Estado de Direito.

A Venezuela, por exemplo, gostaria muito, por certo, de lançar mão deste artifício para livrar-se de Maduro e seu autoproclamado “socialismo do século XXI”, mas nem isso os infelizes podem fazer, pois Chávez é oriundo da caserna, e, por isso, os homens de farda do nosso desventurado vizinho preferem seguir fomentando a convulsão social.

Mas é de se questionar se em pleno ano de 2016, aquele que ficará marcado na história por derrotas sucessivas e vexatórias da esquerda, em nível nacional e internacional, precisaríamos mesmo apelar de tal forma desesperada. Brexit, acordo com as Farc reprovado, Impeachment, PT varrido nas urnas, Trump, Liberais e Conservadores vendendo livros e recebendo cliques como nunca, Freixo morrendo abraçado com os artistas da Globo, Lavajato prendendo a torto e a direito (e mirando corruptos dos mais diversos partidos, derrubando por terra o argumento da perseguição política); não, não há como concordar com esses afoitos ávidos por ver Generais comandando o Planalto.

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Não que aquele professor de História que dá aula com a boina do Che não queira, viu? Se esses correligionários “progressistas” já estão ensinando seus alunos que o impedimento de Dilma foi golpe (e outros ardilosos já publicaram livros sobre o tema antes mesmo da consumação do fato), imagina se, de fato, o governo civil fosse apeado do poder pelos agentes castrenses. Seria o sonho para os perpetradores da ideologia do vitimismo, pois consistiria na garantia de mais algumas décadas pela frente vencendo eleições sob o argumento falacioso de que teriam “lutado pela democracia” destipaíz. Este filme de novo não, sejamos mais espertos e menos precipitados, pelamordedeus.

E outra: em um momento no qual um candidato é eleito prefeito da maior cidade do Brasil, no 1º turno e com votação recorde, muito por conta de seu histórico de gestor de sucesso na iniciativa privada e discurso liberal (com direito a privatizações e concessões no pacote), ou seja, quando parece que, finalmente, a população brasileira começa a entender que a solução é menos governo, abrindo caminho para candidatos com este perfil para 2018, vamos decidir voltar para a estaca zero? Eu mesmo já tentei transmitir esta mensagem¹ em abril do corrente ano, mas não custa repetir:

“Minha afirmação está assentada, primeiramente, no fato de que o Brasil nunca foi administrado por um governo liberal ou conservador – as duas principais correntes de pensamento da Direita. Engana-se quem pensou nos governos militares: sob a ótica gerencial, eles apresentaram diversos pontos em comum com as administrações de esquerda, uma vez que eram coletivistas, contrários ao livre mercado, criaram inúmeras empresas estatais, e interferiram profundamente na economia.

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Trabalhei bastante tempo na Aeronáutica para saber que os militares, como administradores, são ótimos profissionais da guerra. Presenciei tudo aquilo que criticamos costumeiramente em nossos políticos, desde desperdícios de verba pública em gastos de validade duvidosa, até alocação de recursos humanos escassos de forma pouco racional, passando por transações financeiras no mínimo suspeitas, tudo quase sempre em detrimento da eficiência – especialmente em atividades críticas, como o controle de tráfego aéreo².

 Tenho a sensação que este pessoal que invadiu o parlamento na capital federal foi insuflado, de alguma forma, pela desastrosa declaração de Michel Temer no programa Roda Viva, no qual ele afirma que a prisão de Lula poderia causar instabilidade no Brasil. Que boca santa, hein, presidente: gerou em muitos a sensação de que haveria um esquema obsceno para salvar Luiz Inácio da cadeia e que o impeachment, destarte, teria sido trocar seis por meia dúzia – o que está muito longe de ser verdade³.

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Não é para tanto, muito embora tenha sido bastante infeliz a frase.  Não entendam mal Michel Temer: ele é a pessoa errada, no lugar errado, tentando fazer algumas coisas certas – como a PEC do teto de gastos e a reforma do ensino médio. Jamais será ele o estadista que permitirá ao país dar a arrancada definitiva na direção do desenvolvimento sustentável. Ele é da mesma safra de políticos a qual pertencem Renan Calheiros e companhia salafrária – não à toa, foi eleito conjuntamente com Dilma. Se até 2018 deixar um legado de austeridade, já estará de bom tamanho. Os próximos e decisivos passos virão a partir de 2019, quando, espero, um presidente adepto de práticas mais liberais possa assumir o Planalto, juntamente com um congresso menos esquerdista. E assim vamos, gradativamente, saindo do atoleiro em que nos metemos. Isso, claro, se não estivermos sob intervenção militar…

E isto tudo no mesmo dia em que um “patriarca opressor” mata o próprio filho por, supostamente, estar indignado com sua participação em invasões do patrimônio público. Que prato cheio para a intelligentzia passar os próximos meses debatendo – sem tirar o pé de suas mansões, claro.

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¹ http://rodrigoconstantino.com/artigos/esquerda-ou-direita-tanto-faz-sera-ou-o-problema-e-esquerda-sim/

² https://bordinburke.wordpress.com/2016/07/18/o-salario-como-preco-do-trabalho-e-a-crise-aerea-de-20062007/

³ http://rodrigoconstantino.com/artigos/ha-pouca-escolha-entre-macas-podres-mas-ha/

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O interminável duelo Keynes X Hayek segue ecoando em nossas vidas

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O quase centenário debate entre o britânico John Maynard Keynes e o austríaco Friedrich Hayek ganha contornos de uma contenda de gigantes neste excelente livro de Nicholas Wapshott. Este choque de visões influenciou os rumos da humanidade e persistiu além das vidas de seus perpetradores, representando muito mais do que um mero confronto entre convicções econômicas opostas.

E a constatação mais relevante que emerge desta narrativa histórica é, sem dúvida, como as circunstâncias sócio-políticas influenciam, até os dias atuais, na decisão dos líderes mundiais sobre qual receita adotar em cada momento – e como, portanto, tal ingerência deveria, a todo custo, ser evitada. Vejamos os highlights desta luta memorável, e quais lições podem ser aprendidas por aqueles que, hoje, advogam suas teses.

Agentes econômicos manipulados por governantes ou livres para tomar seus próprios rumos: O cenário mundial após a primeira guerra mundial, com diversos países europeus amargando altos índices de desemprego, causava apreensão em Keynes. Ele considerava que as forças naturais do mercado não seriam suficientes para alavancar o renascimento de economias devastadas pelos conflitos armados. Além disso, prevenia que os termos do Tratado de Versalhes, os quais impunham pesadas sanções às nações derrotadas, levariam tais povos a um estado tal de penúria que deixaria o caminho aberto para que ditadores populistas se apresentassem como salvadores da pátria.

Tendo isto em conta, ele arguia que seria tarefa dos Estados estabelecer como meta o atingimento do pleno emprego, por meio, especialmente, da realização de obras de infraestrutura – ainda que a custo de forte endividamento estatal e a despeito da geração de inflação – pois tal medida canalizaria a energia dos cidadãos para o trabalho, tornado menos provável, destarte, a conflagração de novos batalhas entre nações.

Keynes discordava da linha de pensamento de antigos liberais, tais como John Locke e David Hume, segundo os quais “indivíduos que perseguem o próprio interesse com esclarecimento e condições de liberdade sempre tendem a promover o interesse geral”. Ao contrário, ele afirmava que “não é verdade que o autointeresse geralmente seja esclarecido; com mais frequência, os indivíduos que agem separadamente para promover seus próprios fins são ignorantes demais ou fracos demais para sequer alcança-los”.

Acreditava, pois, que o capitalismo “sabiamente administrado” poderia tornar-se mais eficiente. Combater a escassez crônica de demanda que, segundo Keynes, causava redução da atividade econômica e, portanto, desemprego, seria missão primordial dos governos, adotando medidas tais como a redução artificial da taxa de juros. A “ordem natural” da economia (o laissez-faire) era, assim, negada pelo britânico, e muita gente comprou a ideia, especialmente com o advento do crash do mercado de ações em 1929 e a decorrente Grande Depressão.

Hayek, a seu turno, considerava que tal metodologia produziria “demanda artificial”, adiando, tão somente, o dia do ajuste de contas. Conforme seus ensinamentos, não havia caminho fácil para sair de uma recessão, e que mascará-la com empréstimo fácil gerava “poupança forçada”, não poupança real. Quando o capital emprestado aos produtores retornasse ao seu nível anterior aos estímulos estatais, os recursos investidos em equipamentos e demais bens de capital seriam perdidos. Segundo o austríaco, tal conjuntura era propícia à formação de uma crise econômica, e ele viria mais tarde, em seu clássico Road to Serfdom, a vincular as soluções propostas por Keynes à tirania.

Ou seja, as soluções propostas por cada um dos gurus não apenas apontavam em direções diametralmente opostas, como também sugeriam que fazer diferente implicava em flertar com o totalitarismo. O tempo se encarregaria de mostrar que Hayek estava correto, mas seria tempo demais – o suficiente para elevar Keynes ao status de Deus, durante o período de boom provocado pela injeção de liquidez nos mercados, e relegar o austríaco ao esquecimento por décadas.

Quando veio o bust, ironicamente, Keynes já havia falecido, sendo que ele costumava afirmar, diante dos alertas de hiperinflação a que seus métodos costumavam ser associados, que “no longo prazo todos estaremos mortos.” Bom, ele, de fato, já não estava entre nós quando veio a estagflação (inflação alta convivendo com desemprego, algo impensável para os keynesianos até então, e muito familiar aos brasileiros da era PT).

Esta estabilidade temporária propiciada pela metodologia de Keynes, recomendada para momentos de grave recessão, viriam a servir, aliás, como uma luva a outros propósitos menos decentes: campanhas eleitorais.

Os políticos amam Keynes – especialmente em ano eleitoral: o remédio proposto pela Escola Austríaca para lidar com graves colapsos financeiros costuma ser amargo e de efeito retardado. Um medicamento assim não pode ser administrado ao paciente às vésperas de uma campanha de reeleição, sob o risco de entregar a vitória de bandeja ao desafiante. Assim sendo, a expansão monetária irresponsável tornou-se uma arma poderosa na mão de oportunistas que só visualizam no horizonte mais quatro anos de mandato – e danem-se as consequências.

Um caso concreto típico foi o governo do republicano Richard Nixon, o qual, em 1971, mesmo sob o aconselhamento de Milton Friedman (que recomendava manter a oferta de moeda em rédea curta), requisitou ao presidente do FED um crescimento monetário considerável. Friedman advertiu que tal providência poderia levar (e levou) a um cenário de deterioração dos índices econômicos, mas a resposta de Nixon foi emblemática: concordou com o professor de Chicago, mas relevou que, como primeiro viria o crescimento econômico e a economia estaria se expandido durante a eleição de 1972, “nos preocuparemos com isso quando acontecer”.

Eis aí a razão para relegar a possibilidade de intervenção do Estado na economia ao mínimo possível. Na verdade, política e economia deveriam ser tão imiscíveis quanto Estado e Religião, como bem ponderou Ronaldo Carneiro em artigo recentemente publicado pelo Instituto Liberal¹.  Diante do clamor popular por soluções imediatistas, os políticos sempre irão ressuscitar o espírito de Keynes. Que o próximo eleito descasque o abacaxi – lançando mão, no caso, da austeridade proposta por Hayek e seus predecessores. E pagando o preço por isso, claro.

Nesta sucessão de ciclos econômicos, quem pariu Matheus (Pibinho conjugado com inflação alta e desemprego) sai correndo e deixa o sucessor embalar. Toma que o filho feio é teu! Como Robert Skidelsky bem explicou: “acho que Hayek foi derrotado por Keynes nos debates de 1930 não porque esse tenha provado que estava certo, e sim porque, com a queda da economia mundial, ninguém estava interessado em saber o que a havia causado”.

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O carisma de Keynes e o temperamento sisudo de Hayek: A vantagem do britânico sobre o austríaco no quesito simpatia sempre foi uma das suas principais armas na disputa pela atenção do público. Enquanto Keynes era um sujeito popular e que encantava com sua habilidade comunicativa, Hayek era um sujeito mais fechado e  que falava inglês com um sotaque muito carregado. Dizem que suas palestras eram quase incompreensíveis. Ou seja, não mudou muita coisa nestas décadas todas: a propaganda dos adeptos do modelo estatizante costuma ser mais agradável aos sentidos do que a daqueles que pregam a liberdade econômica. Neste contexto, restou provado que não basta ter razão para vencer o debate. Dar uma roupagem adequada ao “produto” pode fazer toda a diferença.

Contribuiu ainda, para que as teorias de Keynes se sobressaíssem, a sua estratégia de demonstrar sua tese de forma prática, ao passo que Hayek argumentava quase que estritamente de forma abstrata. Enquanto o primeiro conseguia ser compreendido até mesmo pelas donas de casa da Inglaterra, o segundo precisava esforçar-se para se fazer entender até mesmo entre seus correligionários. A didática, portanto, desempenhou (e ainda desempenha) papel fundamental nesta batalha ideológica.

A relação promíscua entre guerras e gasto público: Keynes procurava demonstrar a eficácia de suas técnicas com a conjuntura gerada durante as guerras, pois o gasto estatal em defesa costumava fazer girar a roda da economia e estimular todos os setores produtivos. Questionava ele, então, porque não se podia proceder da mesma forma em tempos de paz, até mesmo para evitar a guerra.

O problema é que justificar para os pagadores de impostos tanto endividamento desmesurado nem sempre é fácil, e muitos governantes resolveram aproveitar certas oportunidades que se apresentaram para mandar, sem muita necessidade, soldados para o fronte, pensando, exatamente, nos efeitos benéficos de curto prazo do Keynesianismo.  Quando vieram os ataques da Al Qaeda em 2001, o objetivo declarado de Osama Bin Laden era levar os Estados Unidos à bancarrota, da mesma forma que havia afetado a União Soviética com a ocupação do Afeganistão.

Bush enfrentou esta ameaça com uma grande homenagem a Keynes, aprovando, junto ao congresso, gastos maciços para fortalecer as fronteiras da América, aumentar a segurança nos aeroportos, dentre outros dispêndios do gênero. Como o pacote de impressão de dinheiro parecia estar demorando a fazer efeito – o crescimento era lento, os lucros eram fracos, o mercado de ações estava abatido, a fila do seguro-desemprego só aumentava e o déficit orçamentário atingira US$158 bilhões – foi revogada, em 2002, uma lei de 1990 que assegurava que todo novo gasto federal teria que ser combinado com a respectiva fonte de custeio. Foi a deixa para o engajamento na guerra do Iraque, cujo custo aos cofres americanos superou os US$2 trilhões.

Ou seja, a teoria do small government costuma durar apenas até que algum evento fortuito e inesperado entrave a economia da nação. Diante da insatisfação de pessoas ávidas por um empurrãozinho estatal para sair da crise, a tentação para por em prática os princípios e valores keynesianos bate forte demais, até mesmo durante governos liberais. Ronald Reagan, a propósito, é acusado por analistas de ter, por meio dos gastos em defesa (justificados pela Guerra Fria), adotado a mesma tática, estimulando a demanda agregada e o crescimento econômico, mas de forma dissimulada. Quando Reagan Entrou na Casa Branca, os Estados Unidos eram o maior credor do mundo; após sua saída, os maiores devedores. Assim, muito embora tenha implementado reduções de alíquotas de tributos, desregulamentado substancialmente a economia e controlado quase que inteiramente a inflação, o ex-ator terminou por legar um assombroso passivo a seu sucessor.

Desnecessário dizer que Obama deve dormir utilizando como travesseiro um exemplar de general theory of employment interest and money, a julgar pelo tempo em que o FED vem mantendo a política de juros baixos, na esperança (vã) de eleger a companheira Hillary.

Ademais, não se pode olvidar que guerras, no mais das vezes, são provocadas por governantes que possuem poder demais em suas mãos. Como dizia Friedman, “o poder para fazer coisas certas é o mesmo poder para fazer coisas erradas”. E como afirmava Bastiat, “por onde passam comerciantes, não passam soldados”. Livre comércio e Estado mínimo, portanto, são ótimos para prevenir conflitos armados entre países. Vejamos o caso da Suécia, que se absteve de participar do esforço para derrubar Hitler e viu seu desenvolvimento atingir níveis muito acima da média europeia na época – não que tenha sido a atitude mais corajosa e solidária de todos os tempos, mas serviu para demonstrar que não ter bombas caindo sobre suas indústrias ajuda a alavancar a economia local. Bastante, por sinal.

Keynes “salvou” o capitalismo duas vezes (1930 e 2007): Eu posso concordar com essa conclusão ao final do livro se o autor consentir com a seguinte afirmação: se eu ateio fogo em uma casa e corro com um extintor para apagá-lo, eu salvei a casa. Caso contrário, vai ficar difícil corroborar com esta ilação. Nas duas ocasiões, tornou-se lugar comum na academia alegar que a Grande Depressão tenha sido resultado de políticas baseadas em mercados desimpedidos, concorrência desenfreada, especulação, direitos de propriedade e a simples busca pelo lucro, o que teria motivado, como solução, intervenção governamental, controles burocrático e político, e assistencialismo estatal – Roosevelt e seu New Deal, em suma. Também se costuma ponderar que a bolha financeira de 2007 teria sido insuflada pelo “espírito animal” dos investidores, que só querem saber de seus bônus e deixar a sujeira para o governo limpar a posteriori.

A verdade: o colapso de 1929 originou-se de cinco anos de uma imprudente e precipitada expansão creditícia gerada pelo Banco Central americano, iniciada em 1924, após um significativo arrefecimento da atividade econômica. Os bancos americanos criaram, repentinamente, US$500 milhões em crédito novo, o que, por meio das reservas fracionárias, levou a uma ampliação do crédito total de mais US$4 bilhões em menos de um ano (este sistema permite às instituições bancárias fazerem empréstimos ou investimentos em valor muito superior ao valor dos depósitos sob sua guarda, desde que mantenham como reserva uma determinada fração do valor desses depósitos).

Muito embora, no curto prazo, tal expediente tenha aparentado lograr bons resultados, o resultado final foi calamitoso, e na Grande Depressão (tal qual no Brasil após as eleições de 2014) não foi diferente: essa expansão monetária gerou inúmeros sinais falsos ao mercado, que redundaram em desajustes e maus investimentos, os quais, por sua vez, “justificavam” mais intromissão estatal na atividade produtiva, em um circuito perverso que perpetuou por quase uma década uma crise que poderia ter durado dois anos, causando muito sofrimento desnecessário – e avaliações equivocadas que iriam, inclusive, provocar novos colapsos do mesmo gênero muito tempo depois (em 2007, inclusive).

Vale dizer: o que deu início as maiores crises econômicas de nossa história recente não foi o laissez-faire. Na verdade, ele só é chamado à ação, e em doses muito tímidas, quando o circo pega fogo. Não à toa, até mesmo socialistas como Fernando Henrique Cardoso e políticos de Centro-esquerda como Michel Temer pediram socorro aos defensores do livre mercado quando o bicho pegou. Triste é ter a certeza de que, tão logo as nuvens de tempestade se dissipem no Brasil atual, bastará surgir um distúrbio qualquer em nossa economia para justificar, uma vez mais, que os ungidos do Banco Central e os clarividentes do Ministério da Fazenda arregacem as mangas e façam seu “trabalho”.

Os economistas, a seu turno, estes sim, tem um grande débito com Keynes – até mesmo Milton Friedman admitia isto. Afinal, a profissão, após a ascensão das teorias keynesianas, foi promovida do patamar de mera analista de cenários para um papel ativo, junto aos governos, ditando os rumos da economia. Mas deixar de lado o corporativismo e, pelo menos, ensinar nos cursos de Economia os princípios da Escola Austríaca seria bem mais honesto, levando em conta que a maioria dos graduados na área sequer sabe quem é Mises. Plagiando John Lenon: give liberalism a (real) chance. É o que pede, por exemplo, Trish Intel neste comentário na Foxnews:

Thomas Sowell, em sua obra Conflito de Visões, diferencia o que seria a visão irrestrita da restrita: a primeira baseia-se em uma suposta racionalidade da qual seriam dotados certos indivíduos, e que os capacitaria para tomar decisões absolutamente corretas, habilitando-os, destarte, para “salvar” o homem comum. Já a segunda tem como norte a consciência da imperfeição humana e seus limites, e entende o ser humano como alguém fadado a viver em eterno processo de aprimoramento moral. Seria salutar, pois, que os economistas restringissem sua atuação à analise, e não mais intentassem dirigir o leme de um país inteiro.  Eles podem até nos conduzir por águas calmas por algum tempo, mas colidir com o iceberg logo mais a frente é um preço alto demais para este período de vacas gordas – alimentadas com alfafa estatal. E este preço não tem como tabelar…

E já que Keynes ensinou a todos que a forma da mensagem, por vezes, vale mais que o conteúdo, estes vídeos ajudam muito a entender as idas e vindas desta luta de teorias que atravessou um século inteiro:

 

¹ – https://www.institutoliberal.org.br/blog/por-que-devemos-separar-imediatamente-a-economia-da-politica/

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Beleza é Fundamental, Sim. E, Graças ao livre mercado, uma Meta Acessível a Todos!

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Era previsível que Rodrigo Constantino ouviria algumas vaias por seu artigo¹ em que homenageia a beleza da nova primeira-dama americana e, aproveitando o ensejo, critica as feminazi e sua apologia à fealdade, os homens cada vez menos propensos a portarem-se como tais, e a patrulha ideológica que banalizou o conceito de estupro e busca incessantemente ofuscar a venustidade de pessoas como Melania Trump. Alegam esses paladinos da isonomia laudatória (“elogios iguais para todos”, bradam eles em praça pública ou no Twitter) que o padrão de beleza seria determinado pelo patriarcado e pela indústria da moda, os quais supostamente impõe arquétipos e decidem quem é bonito ou feio – provocando, inclusive, casos de depressão.

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Pois adivinhem só, militantes da beleza interior: nunca foi tão fácil, na história da humanidade, tornar-se bonito (qualquer que seja nossa definição particular para este conceito), independentemente da cota de beleza a nós reservada pela genética. E não precisam agradecer a ninguém: os responsáveis por tal dádiva já ficaram bem ricos como recompensa por sua façanha.

Nascer e morrer mal-apessoado já não é mais uma sina de todo indivíduo desafortunado. Disponibilizar meios para melhorar a autoestima das pessoas, a custos continuamente minorados pela concorrência, sempre foi um nicho de mercado dos mais rentáveis, fazendo do setor de estética uma das atividades econômicas menos suscetíveis a recessões. Como consequência, investidores “gananciosos” tem logrado oferecer a possibilidade de aquilatar a própria aparência a camadas cada vez menos abastadas da população.

Neste cenário, ficar com o cabelo igual ao daquela musa do cinema, igualar o físico do galã da novela, abrir um sorriso tão bonito quanto o de Cameron Diaz (ou parecido, quem sabe), corrigir aquela imperfeição no rosto, exibir uma pele que nem mesmo princesas de grandes impérios da antiguidade sonhariam em ostentar, enfim: todas essas tornaram-se metas relativamente fáceis de atingir na atualidade, dado que existem em profusão prestadores de serviço destes ramos (sejam empresas especializadas ou profissionais liberais), para todos os gostos e bolsos.

Foi-se o tempo em que implantar próteses de silicone era sinônimo de morar no Morumbi; em que correr em uma esteira era resultado de anos de poupança; em que alisar o cabelo era coisa de burguês que possuía uma caríssima “chapinha”; em que seguir uma dieta alimentar seria impossível sem pagar altos honorários a um nutricionista ou à administração de um Spa; em que adquirir aquele óculos bacana ou aquela roupa nova eram realizações restritas a poucos felizardos.

A evolução dos meios de produção (pense em todos os melhoramentos nas indústrias que barateiam o custo e o preço final dos bens produzidos, desde vestuário até produtos de higiene), transporte (pense em sua bicicleta ergométrica comprada em uma loja online sendo trazida de uma fábrica localizada no outro lado do Brasil) e comunicação (pense em você aprendendo com um youtuber como perder peso ou como maquiar-se em casa através de um blog) possibilitou que todos esses objetivos pudessem ficar ao alcance até mesmo de pessoas mais humildes, bastando, no mais das vezes, vontade e disciplina – isso ainda não vendem pela internet.

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Costuma-se alegar, nesta conjuntura, que tanta fartura de oportunidades de ficar mais orgulhoso diante do espelho tenha levado certas pessoas ao exagero. Na busca incessante pela beleza, alguns teriam esquecido-se de procurar engrandecimento intelectual. Bom, não há porque tais tarefas serem excludentes, e pelo mesmos motivos acima expostos: da mesma forma que encurtou o caminho para o corpo desejado, o “cruel capitalismo” também democratizou o acesso à informação, seja qual for sua natureza – de receitas culinárias a faculdades à distância. Mas sempre vai haver quem extrapole, inevitavelmente. Se há pouco mais de cem anos a desnutrição era um dos mais relevantes problemas da humanidade, hoje a obesidade tem tomado seu lugar no topo da lista de preocupações da medicina. Acontece, mas os psicólogos estão aí para isso.

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Todavia, não é salutar rotular como futilidade a atitude de alguém que resolve mudar de vida e cuidar mais da aparência. O ganho de autoconfiança neste processo é fundamental para um grande número de pessoas, e que acaba repercutindo positivamente em diversos outros aspectos de suas vidas. Assim, se você considera frescura ir para a academia, ou que mudar de cardápio é uma típica submissão aos modelos de beleza estabelecidos em passarelas, melhor seria tentar não convencer disso aqueles que estão lutando por uma fisionomia mais condizente com suas aspirações. Trocando em miúdos: se quiser ficar sem se depilar ou mal arrumada de propósito, não enche o saco de quem quer se sentir bem consigo mesmo de outra maneira. Tal precaução costuma evitar bloqueios nas redes sociais, por sinal.

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Ademais, esta concepção de que as pessoas vestem-se e comportam-se como marionetes da indústria da moda e do entretenimento é uma meia verdade: esta via costuma ser de mão dupla, pois os empresários deste ramo erram muito antes de acertar. Na medida em que várias coleções levadas ao mercado acabam por não vender quase nada, e somente algumas delas vem a render bons retornos financeiros, resta claramente caracterizado que, na prática, são os consumidores que ditam o que será moda, com sua escolhas e decisões subjetivas tomadas na hora de ir às compras.

A mesma lógica aplica-se aos demais bens oferecidos por quem vende beleza: ninguém vai continuar insistindo e desperdiçando recursos em propaganda e demais ações de marketing para um produto ou serviço que não agrade ao público. Se o tênis cano alto foi uma das sensações dos anos 1980, foi porque satisfez quem o comprou ou mesmo o viu na vitrine. Se é possível praticar cross-fit em um número cada vez maior de estabelecimentos, é porque seus adeptos estão gostando dos resultados obtidos. E assim por diante.

Talvez alguém considere fútil, então, gastar dinheiro em cirurgias plásticas. Há não muito tempo atrás, ir à manicure era tido como luxo. Se estas intervenções cirúrgicas estão ficando mais populares, é porque muita gente está conseguindo pagar por elas. Será que pessoas que foram submetidas a reconstruções faciais, após acidentes ou incêndios, não são gratas por existir esta especialidade médica? Pois é, mas estes profissionais existem, em boa parte, para cuidar de quem quer fazer pequenas alterações.

E será “justo”, então, pessoas como Marcela Temer terem tido tanta sorte de nascerem belas, ao passo que tantas outras são, digamos, desprovidas deste atributo? Ora, Oscar também deu sorte de nascer com altura para jogar basquete, e nem por isso adversários baixinhos costumavam pedir para sair vinte pontos na frente do placar, ou jogar de salto alto, para compensar. Nem todos nasceram para este esporte, nem para serem modelos – ou casadas com presidentes. Se uma mulher não é tão bonita para fisgar um figurão como Trump, sem problemas: não existe demanda que não seja atendida em um livre mercado. Para isso estão aí aplicativos como o Tinder e diversas outras ferramentas (fruto do desenvolvimento tecnológico e da criatividade de investidores) que aproximam pessoas com interesses comuns, correlacionando suas características físicas e psicológicas – a tal ponto que seria possível afirmar que, hoje, só fica solteiro quem quer.

E assim ocorre com quase tudo o mais: se não posso ter uma Ferrari, tanto faz: o que diferencia o clássico italiano do meu modesto carro são itens que não fazem a menor falta; vou chegar ao meu destino de qualquer forma, afinal. E se alguém pensa em contrário, nada impede que esta pessoa corra atrás das condições para comprar um carango desses – e tal empreitada será tão mais fácil quanto mais liberdade econômica houver no país em questão. Só não vale ficar com inveja daquele conversível que o tiozão passa dirigindo na sua rua – nem  da esposa dele…

¹  http://rodrigoconstantino.com/artigos/o-que-o-brasil-e-os-estados-unidos-tem-em-comum-agora-ou-as-feias-que-me-perdoem-mas-beleza-e-fundamental/

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O Voto Tímido mais Assanhado da História da Democracia

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Em um grupo de Whatsapp do qual faz parte minha esposa, composto por amigos de origens diversas, tão logo Trump foi declarado o novo presidente dos Estados Unidos, foi reproduzido, no micro, o fenômeno que ocorreu no macro nestas eleições americanas – e deixou os institutos de pesquisa daquele país com cara de quem nem sabe de onde veio a bordoada: três pessoas, de um total de doze, acharam positiva para os americanos (e para o resto do mundo) a derrota de Hillary, mas (e aí mora o detalhe) só tiveram coragem de manifestar tal opinião no modo privado do aplicativo de mensagens; diante dos demais membros do grupo, ficaram receosos de admitir tal posicionamento, visto que a turma que atacava Trump era muito barulhenta e costumava rotular de “Bolsominion Yankee” quem criticasse Hillary.

Vale dizer: a patrulha politicamente correta obrigou, lá como cá, parcela considerável dos apoiadores republicanos a guardarem sua deliberação em segredo até o dia do sufrágio. Votar em Trump, seja pelo motivo que fosse, não constava da cartilha autoritária do bonde dos oprimidos, e não poderia, pois, ser considerada uma ação válida, ainda que fosse empreendida por indivíduos munidos de argumentos bem fundamentados.

Muitos adeptos do “make America great again”, desta forma, preferiram não informar aos pesquisadores sua real intenção de voto, nem mesmo por telefone, tal a sensação de condenação moral que foi gerada por estes atormentadores semiprofissionais. Deixaram para desabafar o que havia em suas mentes apenas diante da privacidade oferecida pela urna, tal qual uma pessoa religiosa procede diante do confessionário. Convencer os republicanos que era pecado votar em Trump deu nisso: surprise! E amém.

E a mesma lógica, em menor ou maior grau, aplica-se, sem dúvida, à aprovação do referendo para o Brexit e a reprovação popular ao “acordo de paz” com as FARC na Colômbia. Cria-se uma atmosfera em que somente uma visão é tida como apropriada e concebível, e as demais são reacionárias e fascistas, jogando, destarte, seus partidários para a penumbra, até que a cédula eleitoral jogue luz sobre a vontade destes indivíduos – e cause ataque de nervos nos jornalistas da mídia mainstream.

A discussão de diversos temas relevantes é permeada por esta mesma censura “progressista”, a tal ponto que, em certos casos, até mesmo propor um debate real sobre o tema é proibido. Hordas de muçulmanos sem documentos chegam incessantemente do Oriente Médio para a Europa? A única solução é escancarar as fronteiras do continente; sugerir quaisquer alternativas, como fortalecer o combate àqueles que estão obrigando estas pessoas a fugirem de seus de seus lares, soa ilegítimo para os verdadeiros detentores do monopólio das virtudes.

Como consequência natural, quando o “ultraconservador” Geert Wilders eleger-se primeiro-ministro na Holanda ou a “extrema-direita” Marine Le Pen sagrar-se presidente na França, toneladas de Rivotril serão consumidas por aqueles pegos de surpresa com tais acontecimentos – no caso, os mesmos que decidiram que ninguém poderia opinar em favor de tais fatos sem serem tachados de extremistas.

Esta é a diversidade defendida pelos “progressistas”: não podemos ter preconceito com visões de mundo diversas, a não ser que estejamos falando de liberais e conservadores. Neste caso, o preconceito contra o preconceito da esquerda é que será condenado veementemente. E assim eles seguem suas vidas enclausuradas dentro de suas bolhas ideológicas, e aqueles que tentarem furá-las podem virar alvo de excrementos humanos – triste e bizarra realidade. Esse pessoal sente ojeriza pelo povão e abomina as trevas do conhecimento onde ele vive, motivo pelo qual considera que pode ler meia dúzia de capítulos de Foucault e, caridosamente, determinar seu destino.

Quem sabe, quando houverem assimilado o golpe, eles entendam que o que o cidadão deseja é que o Estado seja bem gerido, para que sua vidas melhorem. Não à toa, João Dória, mesmo sem experiência alguma em administração pública, foi aclamado pelo eleitorado de São Paulo, em virtude de seu sucesso como gestor – e o mesmo raciocínio aplica-se a Trump. O que o candidato falou no vestiário não vai influenciar em seu desempenho no gabinete presidencial, e não vai provocar alta da inflação nem tampouco queda na PIB.

O João do caminhão não está interessado nos devaneios intelectuais forjados por acadêmicos iluminados pelo conforto do ar condicionado ligado no máximo, mas quer muito saber se haverá emprego, segurança e se ele vai ter dinheiro para o pagode no finde. E se ele não puder expressar seu pensamento livremente sem ser estigmatizado por predicados inomináveis, não há problema: ele vai ficar em silêncio. Mas não por muito tempo. Cedo ou tarde ele terá a chance de contar com o anonimato para materializar sua escolha sem correr risco de ouvir “você é um fundamentalista de direita”.

E lá está ele: o magnata nova-iorquino rumo ao cargo mais poderoso do planeta, muito graças a eleitores ao estilo mineiro, “come quieto”, que não precisam de alvoroço nem fazem questão de vencer discussões. Para estes, é suficiente ver a cara de choro e desalento daqueles mesmos déspotas supostamente esclarecidos e arrogantes, tão certos de suas premissas e tão confiantes na vitória. Aliás, salvo engano, uma das acusações contra o presidente Donald era justamente o ego inflado. Estranho, pois simplesmente desconsiderar a hipótese de que dezenas de milhões de pessoas possam estar certas, em detrimento da própria convicção tacanha, é que me parece soar bastante presunçoso.

Isso, aliás, lembra o Keynesianismo: o ciclo de gastos da economia esgotou-se e atingimos a estagflação? Taca mais gasto público e endividamento neste caldo, seu ministro da fazenda. No mesmo sentido, os jornalistas atordoados neste 9/11, em vez de procurarem rever seus conceitos, chegam à brilhante conclusão de que “há, de fato, muitos misóginos e racistas neste mundo, e a solução é…mais progressismo, claro!”.

Está caindo de maduro algum investidor desafiar a hegemonia da TV Globo na cobertura política do Brasil. Levando em conta a excepcional audiência obtida por veículos independentes na internet (podcasts, canais no Youtube, e por aí vai), seria quase como bater em bêbado levar esse pessoal para a televisão para concorrer com os Marinho. Resta saber se o governo federal concederia licença para uma TV “reaça” (ou mesmo para uma rádio como a de Dennis Prager). Talvez prefiram eles continuar tomando “sustos” pelos pleitos eleitorais da vida. 2018 vem aí, e quer queiram ou não aqueles que pensam deter a hegemonia do pensamento nacional, resultados inesperados podem estar sendo concebidos desde já. Assim espero!

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Nós já Vimos este Filme em 2014 – e Não Tem Graça Alguma, América!

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Vinte e seis de outubro de 2014, vinte horas; um país inteiro parado aguardava o resultado da eleição presidencial, a mais disputada da democracia brasileira até então; informações vazadas do TSE davam conta de que Aécio Neves havia disparado na frente da contagem e, em seguida, tão logo se encerrara a apuração do Sul e do Sudeste, Dilma teria saltado em seu encalço; e dito e feito: tenho gravado na retina até hoje a reação da jornalista da Globonews diante dos primeiros números, um misto de alegria e alívio evidente e indisfarçável.

O PT, por muito pouco, havia garantido sua manutenção no cargo máximo da República por dezesseis anos consecutivos (no mínimo), e a perspectiva de que Lula voltaria em 2018 para mais dois mandatos era aterrorizadora e irremediável. Nesse meio tempo, seríamos reduzidos a uma Venezuela sem Miss Universo – já estava sendo preparado o terreno para a “regulação da mídia” e para a implantação dos “conselhos populares” em órgãos da administração pública, e tudo levava a crer que mais três ministros do STF seriam nomeados por Dilma (antes da aprovação da PEC da bengala).

Tudo isso correu pelas sinapses dos brasileiros lúcidos em uma fração de segundos. Só um milagre nos salvaria dali para frente – e ele veio, sob a alcunha de Lava-jato. Sim, esta operação não apenas inaugurou uma nova era de combate à impunidade, como contribuiu decisivamente, junto com a chegada do bust da economia (após alguns anos do boom de juro farto e barato iludindo a massa), para criar o ambiente propício para o Impeachment. Pois não é que, pouco mais de dois anos após este episódio lúgubre da política nacional, cujos desdobramentos se arrastam até hoje, é possível que os americanos vivenciem acontecimentos muito semelhantes nas eleições deste oito de novembro? Quem viver verá. Se a América (como a conhecemos) logrará sobreviver a esses eventos, aí são outros quinhentos (dólares).

(Possível) vitória apertada de uma mulher de esquerda inspirada em revolucionários: a dona Wanda, em sua juventude, lutava pela implantação de uma ditadura do proletariado no Brasil, influenciada pelo incendiário livro “A Revolução da Revolução”, do marxista francês Régis Debray, que difundia o “foquismo” – a teoria da guerrilha de pequenos grupos, os focos, para expropriar e violentar a burguesia. Participou, dentre outras peripécias, de três assaltos a bancos. Hillary Clinton, a seu turno, teve como guru ideológico o satanista Saul Alinsky, de cujo entendimento destoava apenas por acreditar que poderia mudar o sistema por dentro (quase como uma discussão entre Bolcheviques e Mencheviques). Ambas, em sua campanhas eleitorais, rejeitaram seu passado subversivo, preferindo posar de paladinas da democracia. No caso Brazuca, a realidade se impôs, eventualmente, sobre Dilma, mas sua companheira “estadunidense” ainda conta com a distorção dos fatos em seu favor, e faz uso da cartada sexista sem nenhuma reserva. “Está na hora de uma mulher governar este país”, diziam por aqui; e agora repetem por lá.

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A capa da Veja versus a “surpresa de outubro”: A dois dias da eleição presidencial de 2014, esgotava-se rapidamente nas bancas a revista que ostentava na capa uma novidade nem tão surpreendente, e que viria a ser confirmada a posteriori: Lula e Dilma “sabiam de tudo” (do esquema do Petrolão). O impacto só não foi maior porque o prazo era exíguo até o compromisso com as urnas, e os rostos estampados na histórica edição acabaram se dando bem. Já a corrida pela Casa Branca foi apimentada, nas últimas semanas, pela chamada “october surprise”, quando o FBI resolveu reabrir a investigação contra Clinton pelo episódio dos e-mails trocados (e deletados) quando ela era Secretária de Estado. Tal fator, somado à avalanche de revelações do Wikileaks, deu sobrevida a Donald Trump, e alavancou seu desempenho nas pesquisas, gerando uma incrível reviravolta – que está deixando irrequietos muitos Democratas, a tal ponto que a segurança do empresário foi reforçada pelo serviço secreto. Se esta alteração de cenário será suficiente para que ele seja anunciado pela Foxnews como novo presidente, em breve saberemos.

As crises econômicas represadas (até a eleição): Preços de gasolina e eletricidade congelados pelo governo petista desde que a “marolinha” esnobada por Lula deu as caras por aqui permitiram a redução artificial da inflação durante um período considerável, e criaram uma bola de neve financeira que precisaria deslizar pela encosta (e pelo lombo dos mais pobres) em algum momento – depois da reeleição de Dilma, melhor dizendo. Naquele ano eleitoral, os gastos com programas como FIES, Minha Casa Minha Vida, bolsa-família e outros assistencialismos estatais estouraram, e precisaram ser reduzidos drasticamente logo após o resultado das urnas. Os juros baixos subsidiados pelos bancos públicos também prestaram um grande (des)serviço durante o processo decisório dos eleitores, e logo em seguida foi necessário tesourá-los.

Com o mesmo intuito de dar uma forcinha para a camarada Hillary, o Federal Reserve vem mantendo a taxa básica de juros entre 0,25% e 0,50%, e já anunciou que, em sua próxima reunião, ela deve ser elevada – após oito de novembro, claro. O cada vez mais dispendioso Obamacare (que parece que vai precisar ser submetido a teste de paternidade em breve) e o crescente número de americanos recebendo vale-refeição estatal caracterizam, da mesma forma, uso do Tesouro Nacional e endividamento do Estado com fins politiqueiros. Após o último voto ser contabilizado, o “dique” que segura esta aparente calmaria na economia deve ceder, e a avalanche que se seguirá deve mostrar se os Estados Unidos são, de fato, too big to fail.

Sistema eleitoral em cheque: Tal qual procederam os Democratas no ano 2000 (muito embora eles pareçam ter esquecido disso) e os Tucanos em 2014, os Republicanos ameaçam recorrer à suprema corte e requerer recontagem de votos em caso de derrota, tendo em vista inúmeras fraudes relatadas desde que a votação começou em alguns estados – tais quais imigrantes ilegais registrando-se para votar e pacotes com milhares de votos oriundos do mesmo endereço. Nossas caríssimas urnas venezuelanas não inspiram muita confiança na população, e o sistema descentralizado americano não goza de reputação muito melhor, de maneira que a decisão sobre quem leva a melhor nesta disputa eleitoral pode acabar ficando até mesmo para um tribunal estadual — um grupo de sete ministros do Tribunal Superior da Flórida, por exemplo, pode vir a decretar quem será o próximo presidente dos Estados Unidos, caso o resultado da contagem de votos por lá levante suspeitas e a Suprema Corte não resolva o impasse.

Impeachment (ou pior) à vista: Restam poucas dúvidas de que Hillary pode ter a legitimidade de seu cargo contestada pela bancada Republicana no congresso americano em caso de vitória, tal qual ocorreu por estas bandas. Se por aqui a petição baseou-se nos crimes de responsabilidade, lá o cardápio é bem mais variado, e inclui desde denúncias de corrupção (envolvendo a fundação Clinton) quanto obstrução de justiça. Menos mal que a tradição americana manda o presidente renunciar em casos do gênero; se assim se der, não haverá tanta enrolação até a troca no comando do país. Outra possibilidade de Clinton não cumprir seu mandato faz menção a sua saúde: há razões para crer que ela não teria condições físicas de cumprir todos os compromissos inerentes à função – tal qual se questionava, em 2010, se o câncer superado por Dilma não seria um empecilho para sua candidatura (tendo ficado provado, mais tarde, que a saúde de Vana era o menor de seus problemas, e o mesmo se aplica, por certo, a Hillary). Restaria saber, no caso em tela, se Tim Kaine, escalado como vice na chapa Democrata para captar o voto mais “progressista”, que optou por seu rival nas primárias, Bernie Sanders, não consistiria em uma ementa ainda pior do que o soneto.

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Há pouca escolha entre maçãs podres, mas há: Se Aécio Neves estava longe de ser um santo, era uma alternativa menos estatizante ao modelo bolivariano implantado pelo PT no Brasil. Todas as medidas saneadoras aplicadas por Temer desde sua posse poderiam estar em vigor desde janeiro de 2015, e o gosto do remédio amargo já estaria dando lugar, a esta altura, aos efeitos benéficos da austeridade fiscal. No mesmo sentido, Trump entoa, frequentemente, argumentos de validade questionável, mas representa uma opção bem mais alinhada aos princípios que tanta prosperidade trouxeram àquela nação. Se o Brasil pretende, desde a saída pela porta dos fundos de Dilma, alçar voos comerciais bem mais altos que o tacanho Mercosul, Trump também promete rever acordos internacionais firmados pela Estados Unidos na época de Bill Clinton. “Se não tem tu, vai tu mesmo”, como diz o provérbio.

Os artistas perdem a vergonha: Se o pessoal receoso de ficar sem a grana fácil da lei Rouanet empenhou-se para reeleger o PT, atores e músicos americanos também resolveram encampar a luta contra o “fascista” Trump, gravando um clipe em que pedem votos para Hillary – o que gerou este vídeo irônico como resposta:

https://www.youtube.com/watch?v=hC5zr_Ml-wE

O “Nós contra Eles” insuflado pelo populista-mor: Estou falando de Lula, mas poderia tranquilamente estar falando de Obama. Fomentar disputas entre brancos e negros, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, pobres e ricos (o famigerado 1%) é tática comum entre essas duas figuras que pretendem transmitir uma imagem de pacifistas, mas só o que fazem, na prática, é semear o ódio na busca pelo poder.

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Pergunta do Sogro: seu Jair me indagou, certa feita, quem foi o presidente americano que mais ajudou a transformar aquela nação em um terra tão próspera e com índices de desenvolvimento humano tão altos. A resposta correta é, claro, NENHUM: foi justamente a pouca intervenção estatal que possibilitou que os próprios cidadãos criassem tanta pujança nos Estados Unidos. E, neste quesito, nenhum dos dois candidatos se destaca, mas não tenho dúvidas de que o plano de governo de Hillary representa maiores obstáculos ao empreendedorismo. Aumentar o salário mínimo na marra, gerar empregos por meio de obras de infraestrutura, sobretaxar os ricos: o que é isso? Uma CARTA AO POVO AMERICANO às avessas?

Ademais, não podemos olvidar das relações atualmente pouco amistosas entre USA e a Rússia (fruto da atuação desastrosa de Obama na Síria). Afirmar que Vladimir Putin apoia Trump passa a falsa impressão de que eles compartilham dos mesmos ideais, mas, na verdade, eles nada possuem em comum. O que ocorre é que Hillary adota uma postura globalista, e, portanto, quer interferir na politica do mundo todo. Isso ameaça o domínio Russo no oriente. Por outro lado, Trump é nacionalista, e, portanto, anti-globalista – já avisou que sua única aventura no exterior será para destruir o ISIS, e se a OTAN pleitear o apoio do Tio Sam em outros conflitos, vai ter de coçar o bolso. Assim, ele não representa tanto perigo para a expansão da “Mãe Rússia”. As chances de a América envolver-se em uma guerra, portanto, é muito maior com Clinton do que com o suposto “bufão”. E, convenhamos, nada melhor do que uma guerra para autorizar o Estado a gastar desmesuradamente e para forjar figuras políticas “heroicas” – bem o que a Esquerda mais gosta de fazer. Dilma até cogitou decretar estado de exceção antes de ser defenestrada, o quase-ministro Lula queria gastar nossas reservas em dólar, mas felizmente ficou só no sonho dos companheiros transformar nosso país em cenário de The Walking Dead.

O filho pródigo: a parábola do Novo Testamento conta a história do pai que desiste de convencer o filho de ir embora de casa, e deixa-o partir com sua parte da herança, sabedor de que este desperdiçaria tudo e retornaria muito mais humilde, como, de fato, acontece na estória. Talvez os pais fundadores da América, seja lá onde estiverem, estejam na mesma situação retratada no texto bíblico: o povo americano parece mesmo disposto a viver uma desventura irresponsável, e, se não for mesmo possível demovê-lo da ideia com argumentos, só mesmo a experiência traumática poderá trazê-lo de volta à razão.

O desprezo de Hillary pela vida dos americanos, demonstrada em sua omissão criminosa no atentado terrorista em Benghazi, deixa patente que não será sem cicatrizes que a América irá livrar-se deste processo, mesmo após seu eventual mandato – ela deve vir a nomear mais três juízes para a suprema corte, a propósito. Esperemos, pois, que esta sensação de Déjà vu seja, na realidade, uma ilusão de ótica. E a maior esperança neste sentido reside no chamado “efeito Bolsonaro”, visto que muitos eleitores de Trump, com receio da patrulha politicamente correta, costumam não revelar aos pesquisadores que vão votar no Republicano.

Obama recentemente declarou que “votar em Trump significa desfazer tudo o que eu fiz em oito anos”. Propaganda eleitoral em favor de Trump melhor do que essa ninguém do GOP conseguiria fazer…

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Class Divide: HBO Escancara seu Viés de Esquerda

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Foi-se o tempo em que mensagens ocultas criticando o “cruel e nefasto sistema capitalista” eram a regra nas produções americanas. Quando o canal HBO resolve lançar um documentário intitulado “Divisão de Classes”, chega-se a esta preocupante constatação. Se eles concluíram que já é possível tirar a máscara vermelha e mostrar sua real face sem nenhum constrangimento, é porque sentiram que vivem um momento único para sua “nobre causa”. Tudo em nome do social – e de fomentar a inveja e incitar o ódio entre os cidadãos. É claro que dar um empurrãozinho para Hillary Clinton rumo à Casa Branca também não custa nada.

Recomendo fortemente que assistam, pois as cenas do programa retratam bem as palavras de Ronald Regan: a liberdade nunca está a mais de uma geração de ser extinta. Se a nação que prosperou como nenhuma outra em decorrência da adoção do livre mercado pode chegar a este lamentável ponto de inflexão ideológica, o que dizer de nosso país e sua recém-nascida e incipiente consciência anti-estatista. Perpassemos, pois, alguns trechos desta obra-prima do vitimismo e da segregação social:

O MOTE: tudo neste documentário gira em torno da discrepante condição financeira de alunos que frequentam uma escola secundarista de altíssimo nível no bairro West Chelsea, em Manhattan, e os moradores de um conjunto habitacional popular localizado do outro lado da rua. O diretor demonstra que tudo começou a mudar naquela vizinhança quando da inauguração do High Line, uma espécie de parque elevado – praticamente um minhocão abandonado que foi reaproveitado para fins de turismo e deu muito certo.

Os resultados foram a valorização da região como um todo e o decorrente aumento da procura por residências próximas – o que desencadeou uma onda de construção de prédios de alto padrão e um aumento generalizado do valor dos aluguéis praticados. Muitos moradores antigos precisaram mudar-se, e os que ficaram acabam por dividir as calçadas com os novos abastados residentes: um prato cheio, convenhamos, para os “estudiosos” do igualitarismo. Eles devem ter salivado quando se deram conta da oportunidade ímpar de evidenciar injustiça social justamente na capital do Ocidente opressor.

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Os “pobres” cidadãos de Nova York: Com menos de cinco minutos de filme, os espectadores são gentilmente informados de que “é mais difícil para uma criança nascida na América sair da pobreza do que para crianças de países mais desenvolvidos”. Nem vou questionar de onde veio esse curioso dado, pois vai que o roteirista está se referindo aos outros dez países que estão à frente dos Estados Unidos no Heritage Foundation Ranking – uma vez que liberdade econômica é exatamente o que possibilita que um cidadão nasça pobre e fique rico. Vale impugnar, sim, o paradigma utilizado: filhos de imigrantes ilegais.

Sim, pessoas que foram voluntariamente para aquele país, contrariando suas regras para concessão de autorização de residência e trabalho, e que, com toda certeza, estão melhores do que em seus países de origem (caso contrário, fariam a mala e iriam embora), são apresentadas como desafortunados esquecidos pela sociedade e pelo Estado.

Uma menininha, filha de equatorianos (país vitimado pelo bolivarianismo) que fala pelos cotovelos, é instigada a dizer que “odeia dinheiro”, a certo ponto – e é claro que ninguém vai lhe explicar que, nos primórdios da humanidade, cada indivíduo comia ou vestia apenas aquilo que ele fosse capaz de coletar ou caçar, e que o “vil metal” mudou esta realidade, auxiliando as transações econômicas voluntárias.

É de lavar a alma, todavia, ver Danny, um morador do lado menos próspero do bairro, elucidando a seus parceiros de basquete porque virou um Republicano: “se te oferecem um dólar ou uma oportunidade, qual você pegaria? Eu digo que a maior parte dos Democratas pegaria o dólar; muitas pessoas usam o governo e são preguiçosas”. A reação de seus amigos resume-se a “tá falando sério, brou?”.

Durante os créditos do documentário, vem a informação de que o rapaz está investindo no ramo de bebidas, quer ganhar seu primeiro milhão aos 27 anos (essa “ganância” toda é caracterizada como algo negativo), e, adivinhem, associou-se com um amigo que faturava “apenas” doze dólares por hora como porteiro – exploração das mais notórias; quem sabe agora ele possa comprar uma TV de LED maior, coitado.

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A Avenues School: Se alguém tinha curiosidade em saber como nasce o sentimento de ser parte da elite culpada, prepare-se para a revelação. Lá, como cá, é nas escolas (inclusive nas particulares mais caras) que a sensação de já ter nascido com uma pedra de uma tonelada sobre os ombros é incutida nos indivíduos. Expressões como “a desigualdade é um grande problema” e “me sinto mal por ter a oportunidade de estudar neste colégio” permeiam as entrevistas com os estudantes da instituição. Durante o período de filmagens, um aluno cometeu suicídio – exatamente um dos que mais enfatizava sentir-se muito privilegiado em relação aos demais moradores do Chelsea.

Claro que o diretor, malandramente, tenta fazer parecer que o menino tirou a própria vida porque se sentia pressionado a ser bem sucedido, mas não consegue convencer nem a si mesmo: o sangue deste aluno está nas mãos desta equipe de produção que foi até lá e ensinou a esses adolescentes que a fortuna de seus pais é um crime. Lamentável: pessoas que poderiam crescer e tornar-se aquelas que, por meio do estudo e da pesquisa, iriam proporcionar melhorias na vida de todos (inclusive de seus vizinhos menos favorecidos), vão morrer em vão ou virar ativistas, invasores e demais párias.

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Os moradores “expulsos” do Chelsea: Desde 2009, o índice de reajuste de aluguéis neste bairro aumentou em uma razão dez vezes superior ao restante de Manhattan. Eis que residentes que não mais tem condições de arcar com este custo precisam se mudar. Até aí, eu achava que estava tudo normal, pois isso já aconteceu comigo, inclusive, e eu não me lembro de ter chorado nem feito protestos com cartazes na mão. Será tão humilhante assim sair do sul da ilha e procurar apartamento em outro bairro de Nova York? Vamos perguntar aos moradores antigos de Florianópolis se ficaram tão traumatizados assim quando a capital de Santa Catarina virou a “ilha da magia” e passou pelo mesmo processo a partir da década de 1970, “expulsando” alguns deles para o continente.

Olvidam estes nova-iorquinos que estes novos moradores ricos trarão muitos dólares consigo, e isso vai estimular ainda mais a economia local, por certo. Quem sabe eles não gostariam que a prefeitura tabelasse os preços dos aluguéis, então. Ou proibisse novos investimentos imobiliários na região. Melhor ainda, subsidiasse o aluguel desse povo todo com dinheiro dos pagadores de impostos (incluindo eles próprios, no caso). Quanto mais intervenção e regulação estatal, melhor; eis um bom tema para outro cartaz, camaradas. Bernie Sanders curtiu essa manifestação!

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A instituição sem fins lucrativos Hudson Guild: criada em 1897 por John Lovejoy Elliott, esta agência comunitária oferece programas para pessoas de baixa renda do Chelsea, de todas as idades, desde formação profissional até acompanhamento psicológico, passando por atividades recreativas. Eis aí uma grande lição involuntária que passa batida ao espectador menos atento do documentário: quanto menos Estado, mais solidárias as pessoas podem ser (e são). Não deve ser tarefa das mais fáceis ser caridoso em Cuba – não por falta de vontade, mas sim porque ninguém possui além do estritamente necessário para sobreviver (na melhor das hipóteses), se não estiver mancomunado com o governo dos Castro.

O instituto Guga Kuerten, por exemplo, tenta fazer um trabalho similar no Brasil, mas poderia ir muito além se seu patrono não estivesse sendo extorquido pela Receita Federal – sim, aquele mesmo CARF que perdoou dívidas bilionárias de políticos e empresários adeptos do capitalismo de compadres. Quem mandou querer assumir as funções do Estado de bem estar social, manezinho…

hudson

Enfim, seria possível continuar escrevendo por horas a respeito desta verdadeira ode ao ressentimento, tal o número de parvoíces enunciadas, mas só mesmo assistindo na íntegra para saber do que estou falando. Apenas recomendo cautela: pular pela janela como penitência por fazer parte da “zelite” pode ser um dos efeitos colaterais desta obra televisiva. Michael Moore está “fazendo escola”, pelo jeito. Mas esta escola dificilmente será “ocupada por estudantes”.

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