Por que os avanços tecnológicos causam arrepios no brasileiro?

robos

É grande o alarido toda vez que alguma inovação tecnológica ameaça tornar obsoletos determinados postos de trabalho. Imaginar o trocador do ônibus sendo substituído por uma leitora de cartão magnético é penoso até para o mais bruto dos corações. Mas este processo de adaptação a novos tempos seria bem melhor recebido caso os benefícios de tal prática fossem melhor esclarecidos à sociedade, e esta transição de métodos rudimentares de produção para sistemas modernos fosse acompanhada pela regulamentação do olvidado inciso XXVII do artigo 7º da Constituição Federal, no sentido de proporcionar algum suporte aos cobradores do busão que perderam o emprego em sua busca por uma nova ocupação. Se tais providências ainda vierem acompanhadas de melhoramentos na Educação Básica, será motivo de festejo nacional.

Comecemos pelo referido comando da Carta Magna. Sua redação determina que:

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

XXVII – proteção em face da automação, na forma da lei;

Trata-se de norma constitucional de eficácia limitada, ou seja, incapaz de gerar os efeitos jurídicos pretendidos sem a edição de norma infraconstitucional. Portanto, até que seja aprovada lei que pormenorize que proteção é essa que o Estado deve proporcionar aos afetados pela automação de processos, ela, na prática, não existe.

E que tipo de assistência poderiam os prejudicados receber em situações provocadas quando postos de gasolina resolvem substituir os frentistas por dispositivos eletrônicos, ou quando os operadores de pedágio são supridos por sistema de pagamento automático? Certamente não imaginei protestos organizados por sindicatos ou greves intermináveis – as quais somente logram motivar ainda mais as empresas a investir em tais tecnologias, tal qual ocorre durante a atual paralisação dos bancários. Afinal, na tentativa desastrada de mostrar seu desagrado com as agências virtuais (uma das bandeiras do movimento, além do “Fora Temer”), os “companheiros” dos bancos só fazem estimular ainda mais as instituições financeiras a adotarem técnicas de Machine Learning, Data Mining e Big Data para reduzirem custos operacionais com pessoal.

Em vez de vociferar palavras de ordem contra a evolução da humanidade, empunhando bandeiras vermelhas e servindo de massa de manobra, seria salutar reivindicar que a travessia do trabalhador para um novo ofício seja facilitada de alguma forma pela administração pública, especialmente em relação àqueles de idade mais avançada. Custear capacitações para outras atividades, propiciar um período mais elástico de salvaguarda financeira, desonerar os empregadores que oportunizarem vagas para os substituídos por braços robóticos: todas essas seriam medidas eficazes no intuito de facilitar a reintegração destes profissionais no mercado de trabalho, em setores diversos do quais laboravam, e nos quais sua mão de obra não mais é requerida.

É claro que a acomodação destas pessoas em novas ocupações seria bem menos traumática se a educação no Brasil fosse de melhor qualidade, e proporcionasse ao brasileiro uma base em ciências mais sólida. Tirar alguém de um trabalho essencialmente manual, tentando fazê-lo assimilar novos conhecimentos e realizar tarefas mais complexas, é missão ingrata em nosso país, dado o baixo nível intelectual com que nossos alunos saem das escolas. Neste sentido, torna-se fundamental permitir que o estudante possa direcionar sua aprendizagem para as áreas com as quais possui mais afinidade: ponto positivo para este aspecto da reforma do ensino médio proposta pelo ministro Mendonça Filho. E ponto negativo para os professores militantes que desperdiçam o tempo dos alunos (o recurso mais escasso do planeta) com doutrinação ideológica e proselitismo político.

O que não se pode tolerar é a resistência ao advento de novos meios de produção que viabilizem a geração de mais valor a custos minorados, pois esse progresso da indústria possibilita que os consumidores gastem menos para comprar bens de consumo dotados de mais qualidade intrínseca (basta visualizar o brasileiro trocando um carro por um computador na década de 1980, e carregando um processador portátil em seu telefone nos dias atuais por menos de mil reais), gerando, destarte, um enriquecimento generalizado da população. Este capital poupado, eventualmente, será gasto na compra de outros produtos e serviços, o que representará geração de empregos em outras atividades econômicas. Ou seja, os empregos extintos serão supridos por tantos outros neste processo, enquanto a vida de todos melhora com a tecnologia.

E que não percamos de vista: uma das principais causas dos altos índices de acidentes do trabalho e adoecimento ocupacional no Brasil é, justamente, o atraso tecnológico de boa parte do parque fabril nacional. Máquinas mais sofisticadas são sinônimo de equipamentos mais seguros e ambiente laboral mais saudável – especialmente no que tange a operadores que sofrem com problemas ergonômicos. Neste mister, reduzir o protecionismo também seria essencial, visto que facilitaria a entrada de maquinário moderno a preços reduzidos.

Os condutores de charrete devem ter sofrido quando os carros começaram a tomar as ruas, e os fabricantes de espadas certamente lamentaram a invenção da pólvora. Não será muito diferente quando a indústria petrolífera for totalmente trocada por fontes de energia renováveis. A nanotecnologia pode custar o trabalho até mesmo de alguns cirurgiões. Mas a lamúria dessas pessoas é apenas a casca destes eventos: olhando por dentro, constata-se uma significativa elevação do padrão de vida de todos. E por isso devemos considerar os desempregados apenas um efeito colateral destes benefícios? Não necessariamente. Que sabe nossos parlamentares, tão ocupados de terça a quinta em Brasília, possam materializar a vontade do legislador constituinte de 1988, tornando o impacto da inovação menos gravoso aos trabalhadores menos qualificados. Melhor ainda se nossos alunos saírem do ensino médio com muito conhecimento teórico e prático em suas mentes, e menos “consciência crítica” – eufemismo para mentalidade anticapitalista em estado puro.

Uma última advertência: que não se use a oportunidade de regulamentar o inciso XXVII do artigo 7º da CF/88 para limitar a modernização da indústria, criando “cotas para trabalhadores braçais”. Acho que eu nem deveria ter dado a ideia, mas sempre é bom antecipar-se a iniciativas bizarras como essa. Com entidades de classe monopolísticas que recebem R$3,5 bilhões de forma compulsória anualmente, e demais pelegos do gênero, não se brinca. Reservas de mercado, neste contexto, podem representar um grande obstáculo ao progresso da humanidade. E isso que eles costumam repetir que “não aceitam retrocesso”…

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9 comentários sobre “Por que os avanços tecnológicos causam arrepios no brasileiro?

  1. Não conhecia o Artigo que você mencionou. Ele é bem representativo da mentalidade que predominava entre os constituintes. Temos uma Constituição social-democrata, e quase infantil. Normatiza até o juro. Mas faltou o preço do pão…
    Um abraço.

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  2. Destacando que, a automação, não gera desemprego no sentido estrito do termo, mas permite a migração para outras áreas que demandem maior especialidade. Graças a automação industrial é possível ter mais chefs de cozinha; graças à mecanização da agricultura é possível ter mais designers, mais jornalistas… Enfim, quando se consegue programar uma máquina para que esta faça um trabalho repetitivo, sobra mais tempo para o “humano” pensar em outras coisas.

    O problema é o apego emocional à certas coisas/profissões delimita a discussão (e possivelmente permeou a lavra do inciso 27, em tela). Muitos ainda amam suas máquinas de escrever, mas não os vejo fazendo cursos de datilografia. O que fizeram esses professores? Migraram para outras áreas. Assim em tudo na vida.

    Ao contrário do que muitos dizem, não é o mais forte quem sobrevive. É o mais adaptado ao ambiente e suas mudanças.

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      1. Exato! Quem se adapta, sobrevive, seja como feirante, seja como latifundiário. Meu ponto (talvez não tenha deixado isso claro) é que os novos tempos/tecnologias demandam tão somente adaptação. Há espaço para todos, pois com as novas tecnologias surgem novas demandas, sejam elas análogas à tecnologia (um operário que vira profissional de manutenção de máquinas, por exemplo), seja pela criação de novas necessidades (por exemplo, um torneiro mecânico que vê a possibilidade de montar uma lancheria). A tecnologia “per se” não decreta a morte de profissões (quem o faz é a demanda); o apego ao passado, seja por motivos sentimentais, seja por orgulho, esse sim, “mata”.

        Meu avô era sapateiro. Nunca se adaptou, nunca se modernizou. Nunca mudou sequer uma cadeira de sua velha sapataria. Morreu com ela fechada, cheia de goteiras, mas com o orgulho intacto. Admiro a resiliência do velho, mas em termos estritamente profissionais preferiu o suicídio profissional à adaptação.

        Espero ter deixado meu ponto mais claro!

        Abraços!

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  3. Desculpem retrucar (ou retocar), mas com a melhor das intenções, vou resgatar mais algum tempo de historia para formar um bom argumento. Antes da revolução Industrial e dos novos sistemas de qualidade, os Artesãos eram totalmente independentes e tomavam todas as decisões à respeito do seu ofício, tais como escolher os materiais, as ferramentas, os métodos de execução do trabalho, os auxiliares e os aprendizes, o que de certa forma lhes proporcionava posições de prestígio bem “burguesas”, e não raro, tal posição de prestígio eram passadas de pai pra filho e assim eram aperfeiçoadas. Há de se considerar que eram limitadas em termos de produção bem como na uniformidade dos produtos, mas muitos desses nichos familiares mais tarde deram origem as grandes Empresas em certos ramos de negócio.
    ..
    Citando o caso específico do sapateiro e avô do Leonardo, seria interessante chamar atenção para o re-aproveitamento dos sapatos, pois não tenho conhecimento de nenhuma máquina que faça isso bem feito e barato. A título de exemplo, moro há 40 anos no Rio de Janeiro e quase em frente tem uma portinha minúscula onde um “sapateiro mequetrefe” faz fila de gente o dia inteiro e já perdi a conta de quantas vezes entrei na fila com sapato, mochila, tênis e com 5 ou 10 reais, não precisei jogar o utensílio fora, o que me deixou mais feliz do que se tivesse comprado um novo. O principal sapateiro que hoje trabalha lá é um sobrinho do antigo, mas além dele tem mais gente da mesma família e todos são muito habilidosos na arte de Quebrar o Galho e de reformar sapatos de todo tipo, e repito, não conheço nenhuma maquina que faça isso bem feito e baratinho.
    ..
    Máquina não sabe improvisar, não sabe fazer diferente, não sabe agradar aos clientes ora gregos e ora troianos e muito menos, de descobrir exatamente onde o sapato dói nos pés de quem precisa deles.
    ..
    Não sou contra a tecnologia, progresso e inovação, mas à medida que isso obriga milhares de graduados em universidades e tantos outros talentosos artesãos a trabalharem fazendo empadinha ou vendendo bala no ponto de ônibus, estou certo que isso também não é o melhor caminho, se pensarmos numa sociedade como um todo, onde o fracasso profissional e a frustração pessoal de uns, de alguma forma, vai acabar afetando o sucesso dos outros convíveres, mais cedo ou mais tarde.
    ..
    Precisa haver um certo equilíbrio ético, moral e “temporal” nessa questão da tecnologia, mas acredito que é exatamente esse o objetivo ao abordar o assunto, conforme sugere o Artigo e os comentários precedentes.
    ..
    O comentário do Leonardo parece “globalmente” correto, mas deixa muito a desejar no problema temporal para se aprender outro ofício, ganhar experiência, ser re-contratado ou montar o próprio negócio pra quem tem disposição e recursos pra isso, pois até para se adaptar há limites que não podem ser transgredidos sem causarem prejuízos significativos ao conjunto da grande obra que é uma sociedade boa e prospera para se viver bem, e principalmente, feliz com tudo que se faz no dia a dia.

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    1. Rogério, você colocou aí uma questão moral, mas surge então uma outra questão, agora de fundo prático: Quem define até que ponto se pode chegar com a tecnologia (e a inovação) para não comprometer o nível (e o tipo) de emprego adequado a uma “sociedade boa e prospera”? Aliás, o que seria uma “sociedade boa e prospera”? Repare que nem entrei no mérito se é realmente verdade que “milhares de graduados em universidades e tantos outros talentosos artesãos” vão ter que trabalhar vendendo bala por causa da tecnologia e da inovação.
      Um abraço.

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    2. @Rogério

      Eu cheguei a escrever esse “parenteses” do tempo de adaptação, do investimento, etc. Mas fiquei com medo de, divagar e perder o foco do ponto central da minha ideia.

      Você está correto. Essa adaptação não é simples e nem fácil. Tem custos. Demanda um investimento de energia alto. E é daí que vem o “apego emocional” às profissões, e que no segundo comentário defini como “orgulho” por parte do meu avô.

      Máquinas nunca substituirão totalmente a mão de obra humana. Mas, penso, que a própria sociedade tende a sedimentar quais avanços permanecem, e quais serão descartados. Novamente: a demanda é quem define as regras do jogo. O cenário mais usual é a máquina entrando como auxiliar para trabalhos “repetitivos” e o fator humano, ajustando os detalhes, conforme a situação concreta. Exemplo: a motosserra. Ela substitui o trabalho manual de “vai-e-vem” do serrote. Mas quem decide para qual lado a árvore deve cair, é o operador.

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  4. Caros, bom debate e ótima conversa. (Pela ordem) Respondendo ao Alexandre, endosso a alegação do LG, “a demanda é quem define as regras do jogo”, então, uma sociedade boa e prospera é aquela que supre suas demandas, quer sejam de produtos ou de Serviços e assim retornamos à necessidade ética de de se nortear pela busca do equilíbrio sem subverter a ordem moral das coisas, como por exemplo, grandes empresas que criam demandas praticamente desnecessárias ao povo e acabam criando mais “lixo e destruição” do que benefícios, ou seja, criam grandes desequilíbrios no ambiente e nas pessoas, muitas vezes apenas para gerar lucros e forma maior e mais rápida, e então, moralmente falando, introduzo o termo (moral) Agressivamente dentro desse contexto, que em ultima instância fere a ética dos bons princípios e costumes. Portanto, as sociedades boas e prósperas, não devem fazer isso sistematicamente.
    ..
    A sensibilidade do LG com relação à memória (apego) não é algo apenas notório, e até ouso afirmar que vai muito além do plano emocional conforme prossigo adiante, pois paticamente trata-se de uma Lei da Natureza que poucas pessoas conhecem, e que tenho prazer de compartilhar brevemente nessa conversa.
    ..
    Por mais infinitesimal que seja, a energia necessária para se apagar um bit de informação, hoje conhecida como limite de Landauer, ela é absolutamente real e mensurável. Os processos de apagar informações não apenas gastam uma certa quantidade de energia, como também precisa ser feito de forma irreversível, e portanto, tudo que que envolve descartar informações, aumentam a entropia do sistema por serem naturalmente irreversíveis. Essa lei foi concebida por Claude Shannon, um brilhante matemático e engenheiro do século XX que revelou a natureza da informação nas suas variadas formas, com sua Teoria Matemática da Comunicação, que inclui até a própria linguagem humana (falar, ouvir, ler e escrever).
    ..
    Então, com esse “difícil e dispendioso” processo de “descarte de informações” (ou memórias) melhor esclarecido, e juntando com as questões da inovação tecnológica, dos resíduos tanto físicos (lixo) e comportamentais (humanos) que todos nós percebemos quase que diariamente acontecerem (Entropia), volto a bater na tecla da ética e do equilíbrio, com objetivo de se aprimorar a consciência dos problemas envolvidos ao longo do tempo, também considerando que o Tempo é Dinheiro.
    ..
    abraços a todos e obrigado ao Bordin pelo espaço

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