O “Milagre” da Economia Planificada: Miséria!

santa

Não foi nenhuma surpresa quando o Vaticano anunciou, há poucos dias, a canonização da Madre Teresa de Calcutá. Sua abnegação em nome dos destituídos rendeu-lhe a santidade, na verdade, ainda em vida, tal o reconhecimento da importância de sua obra de caridade e solidariedade. Embora ela, assim como qualquer figura pública, não tenha passado incólume pelos críticos (o britânico Christopher Hitchens repreendeu sua proximidade com ditadores, e o indiano Aroup Chatterjee denunciou a falta de higiene dos centros de saúde da congregação da beata), a albanesa Anjezë Gonxhe Bojaxhiu inspirou muitas pessoas mundo afora a renunciarem a suas próprias vidas em prol de outrem. Proponho, portanto, em vez de alimentar a polêmica em torno da senhora que recolhia leprosos da rua, abordar a questão por outro viés: por que razão havia tantos miseráveis e maltrapilhos doentes em Calcutá? E por que eles não paravam de chegar aos abrigos, mais e mais?

A pobreza extrema ao redor do mundo despencou na medida em que a economia de mercado se expandiu, conforme dados do Banco Mundial. Todavia, Mahatma Gandhi preferia acreditar e pregar que a simplicidade era o único caminho em busca da pureza espiritual. A propalação de sua doutrina sagrada pela Índia, segundo a qual o ascetismo e a pobreza seriam bons para a alma, influenciou muito os governantes daquele país (especialmente após 1947) quando da adoção de medidas desastrosas para a economia, como o fechamento do território ao comércio internacional, a criação de inúmeras empresas estatais para substituir as importações, e a imposição de pesados impostos para “proteger” o mercado nacional. Gandhi acreditava que as indústrias estrangeiras, o comércio internacional e o consumo eram os grandes problemas da Índia. E pregava que a nação deveria abrir mão disso tudo em nome dos antigos costumes das aldeias. O resultado? Fome, claro – o que, para um monge acostumado ao jejum, talvez estivesse longe de ser algo ruim, mas para o povo afaimado, as consequências foram nefastas.

Outro fator que alavancou os níveis de produtividade – por meio do qual se tornariam acessíveis, a parcelas cada vez maiores da população, bens de consumos outrora tidos como luxo –, qual seja, a divisão do trabalho, era veementemente condenada pelo guru preferido dos “pacifistas” ocidentais (os mesmos que aprovam as ações violentas das milícias urbanas e rurais da Esquerda no Brasil). Gandhi aconselhava os hindus a ingerirem apenas o que produzissem, construírem suas próprias casas e fazerem as próprias roupas. Assim, o aumento da qualidade de vida experimentado nos últimos séculos por boa parte da humanidade – gerado em razão, justamente, da especialização no mercado de trabalho e ao comércio globalizado – foi sonegado aos indianos, que assistiriam estupefatos a densidade demográfica crescer descontroladamente, e de forma inversamente proporcional à riqueza nacional, o que levaria os índices de desenvolvimento humano do subcontinente indiano a padrões lastimáveis.

É claro que a cultura de castas da Índia também desempenha importante papel neste processo de depauperamento da economia local. Com a impossibilidade de ascensão social, a motivação para empreender e gerar valor para a sociedade é suprimida. E como é exatamente a iniciativa de pessoas comuns em oferecer produtos e serviços a custos reduzidos aos demais (visando à acumulação de capital e reinvestimento na empreitada, a fim de mantê-la viável), muita riqueza deixa de ser gerada. Desta forma, as histórias de empresários que começaram do zero e erigiram companhias colossais, tão comuns em outras partes do mundo (especialmente onde há pouca intervenção estatal e muita liberdade econômica), na Índia são apenas lendas.

E muito embora, a partir de 1991, o país tenha promovido algumas reformas liberalizantes, abrindo-se, em parte, para o comércio global, ainda restou um forte controle estatal sobre a economia, com a adoção de sistemas de licenças e regulações governamentais que criaram reservas de mercado (leia-se: qualidade ruim e preços altos que os cidadãos são obrigados a encarar devido a barreiras para entrada de novos investidores), e forte presença da burocracia na vida das pessoas. Nos setores “estratégicos” relacionados à indústria de base, à extração mineral, à geração de energia, ao refino de petróleo e mesmo à indústria automobilística (Maruti e Tata), foi garantida a presença do Estado como acionista majoritário (qualquer semelhança com o modelo de partilha adotado na Petrobrás é, na verdade, a mesmíssima coisa).Ou seja, economia planificada, centralizada na mão de alguns poucos “jênios”. E qual o problema disso?

Pergunte a Frederick Von Hayke, segundo quem, na prática, o planejamento central jamais poderia ter informações suficientes para tomar uma decisão racional, ainda mais em países de dimensões continentais. Hayek argumentou que “o conhecimento é disperso na sociedade e a sua utilização racional é levada a efeito por cada indivíduo traçando seus próprios planos segundo circunstâncias personalíssimas e intransferíveis. O mercado coordena esses planos espontaneamente, sobretudo por intermédio do sistema de preços, de forma muito mais racional e útil do que um planejamento central poderia esperar fazer.” Mas é claro que os burocratas hindus discordam – a exemplo de seus colegas tupiniquins. “Na Índia, quando o governo dorme, a economia cresce”, disse Gurcharan Das, ex-presidente da subsidiária indiana da Procter & Gamble, a gigante americana do setor de higiene e limpeza, em entrevista recente à revista Newsweek. Muito bem dito, por sinal.

Todos esses fatores somados levam a um único resultado: cidadãos paupérrimos e sem condições mínimas de subsistência ou dignidade. E um componente deste cenário agrava a situação: a reduzidíssima cobertura do saneamento básico – principal fator gerador do alto número de doentes na Índia. A esta altura, ninguém deve estar surpreso com a incapacidade daquele Estado em prover tal serviço público. Surpresa seria ocorrer a privatização desta atividade econômica, como ocorreu em alguns municípios do Brasil, alavancando em muito as condições de higiene dessas regiões.

Diante de tantas mazelas, Madre Teresa e os demais membros de sua congregação resolveram arregaçar as mangas e tentar melhorar de alguma forma a vida daquelas pessoas coisificadas. Missão esta, aliás, extremamente rara em países onde uma parcela tão significativa do capital circula nas mãos do Estado. Nestes locais, as pessoas, muito embora queiram, costumam não dispor de recursos para correr em auxílio do próximo. Além disso, cria-se a cultura de que o responsável por amparar os necessitados é o governo. Como afirma Dennis Prager, a primeira coisa que some em uma economia socialista é a bondade; o socialismo mina o caráter de uma nação e seus cidadãos. Nada como o ambiente de trocas voluntárias para despertar o sentimento de cooperação mútua. O curioso é que costuma-se apontar o “capitalismo desenfreado” como o grande responsável pela indiferença entre os seres humanos. Nada mais falso.

Pior ainda: tal conjuntura torna mais provável o surgimento de supostos “salvadores da pátria”, vivaldinos que apostam na esperança de redenção de pessoas subjugadas pelas péssimas condições de vida, ávidas por alguém que lhes diga que irá resgatá-los de seu calvário, um… Populista! Como bem asseverou Gloria Alvarez, El populismo ama tanto a los pobres que los multiplica. Sem mencionar que a probabilidade de que a atividade política atraia pessoas de boa índole é extremamente baixa, como observamos cotidianamente – acredite, não é mera falta de sorte contarmos com pessoas da estirpe de Renan Calheiros no alto panteão da República.

Não creio que fosse esse o caso da Madre Teresa. Penso que ela, genuinamente, acreditava que seu trabalho melhorava a vida das pessoas. Mas é sabido que políticos adoram massas de manobra, compostas por despossuídos, para prometer mundos e fundos, levando tais cidadãos a crer que algum governante, independente de suas qualificações e intenções, pode ser o responsável pelo desenvolvimento de uma nação – quando, na verdade, a melhor coisa que ele poderia fazer seria parar de atrapalhar os agentes econômicos. O Brasil já se deparou com muitos destes espertalhões em sua trajetória, e diversos outros ainda tentarão a sorte com o dinheiro dos pagadores de impostos. Apenas rezar um pai-nosso não vai operar o milagre de eliminar da vida pública tais oportunistas: é necessário debelar do imaginário popular a mentalidade paternalista, que cria o terreno fértil para estas ervas daninhas de paletó, gravata e discurso bonito crescerem.

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