Garçom, traz a “Dolorosa” dos Brasileiros “Otários”

Homer

Na esteira da iminente entrada em vigor da lei que tornará obrigatória a individualização das contas de água em condomínios habitacionais, proponho uma reflexão sobre uma particularidade do Brasil na hora de pagar a conta do restaurante: a cobrança por peso, ou por pessoa (independentemente do consumo). Seria mesmo correto 400 gramas de camarão custarem menos que 450 gramas de arroz? E por que um glutão deve pagar o mesmo que alguém que sequer repete o prato? Acredito que tal procedimento típico do Brasil (é raro deparar-se com tal sistema mundo afora) reflete sobremaneira nossa mentalidade coletivista, e demonstra uma clara tendência do brasileiro a abusar de um direito quando pode dividir a respectiva despesa com outras pessoas – como não poderia deixar de ser, aliás.

Vejamos a semelhança com outro episódio recente, quando as empresas de telefonia propuseram que os usuários dos serviços de banda larga fossem tarifados conforme a quantidade de dados que consumissem, e não mais apenas com base na velocidade contratada (e raramente entregue pela companhia, diga-se). Parecia razoável: alguém que usa a internet apenas para acessar websites deve pagar o mesmo que outro consumidor que faz downloads pesados 24 horas por dia? Não seria mais adequado oferecer pacotes para os diferentes perfis de internautas, desde os aficionados até aqueles que utilizam o serviço apenas eventualmente?

A resposta para essas perguntas passa pela seguinte constatação: empresas de telefonia (ou de qualquer outra atividade econômica) não vivem de caridade. O custo para fornecer a banda de internet para o internauta eventual e para o “viciado” certamente será compartido entre ambos. Com a legislação vigente, todavia, se eles contratam a mesma velocidade, pagam o mesmo valor. Ou seja: quem consome menos está pagando para quem consome mais. Se alguma companhia pretende oferecer a possibilidade de quebrar essa distorção, medindo o consumo de dados e cobrando conforme a utilização, o Estado brasileiro não deveria impedi-la. Os usuários insatisfeitos com tal modelo poderiam procurar alternativas na concorrência, pois sua demanda por um “buffet livre” de internet seria, por certo, atendida por outras empresas do ramo de olho neste nicho – especialmente se as barreiras para entrada no setor fossem derrubadas pela Anatel, permitindo que a competição no setor aumentasse substancialmente, em benefício dos consumidores (especialmente daqueles que não passam o dia inteiro online).

Nesse mesmo sentido, o custo dos alimentos consumidos em uma refeição, considerados dois pratos servidos de igual peso, dificilmente será o mesmo, considerando que as predileções dos indivíduos variam muito. Mas como o dispêndio total dos alimentos consumidos em uma determinada ocasião, em um dado estabelecimento, deverá ser custeado por todos que usufruíram do serviço (não importando se consumiram 500 gramas de picanha ou costela, cortes de valor muito diferenciado), novamente nos deparamos com a situação onde consumidores de diferentes perfis são tratados de forma homogênea. A mesma discrepância ocorre no sistema de “all you can eat”, onde determinadas pessoas acarretam prejuízo para o restaurante, e outras lucro, sendo que essas, na prática, pagam parte do almoço daquelas.

Esse expediente de “somar tudo e dividir por todos” é bastante comum em confraternizações entre amigos e parentes. Raramente alguém irá se importar se o fulano comeu mais que o beltrano no almoço de Páscoa. Mas essa concepção, na qual se justifica que certos cidadãos sejam beneficiados em detrimento de outros, com a coletividade bancando parte do consumo de determinados indivíduos, não se sustenta quando se trata de pessoas que não se conhecem e, não raro, nunca virão a se conhecer. Todavia, no Brasil, já estamos acostumados a lidar com esse tipo de iniquidade, quando os frequentadores de cinemas e show artísticos bancam a meia entrada de diversos beneficiários; quando o BNDES concede empréstimos com juros subsidiados a determinadas empresas detentoras de laços com governantes (utilizando até mesmo recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT); quando universidades públicas são custeadas com impostos de brasileiros que nunca sequer chegaram perto de uma – ao passo que os favorecidos, em vez de justificar tal sacrifício popular dedicando-se aos estudos, preferem “fazer greve” e praticar bizarrices as mais diversas, até porque não desembolsam nem um tostão com seus estudos.

É claro que existem restaurantes que adotam o sistema à la carte, e mais lógico ainda é que, se há tantos outros que vendem comida por quilo ou no buffet livre, existe demanda para tal. Longe de mim, pois, querer que o Estado intervenha e determine de que maneira os comerciantes devem cobrar por seus produtos e serviços, tal qual ocorreu anos atrás, quando o governo determinou que padarias deveriam vender o pão francês por peso, desagradando empresários e consumidores – e, claro, justificando a criação de “fiscais de balança” (leia-se: mais Estado e impostos).

O que estou preconizando é que os próprios consumidores apercebam-se da incongruência de onerar pessoas que consomem menos em favor de outras que consomem mais, e passem a demandar que os restaurantes empreguem métodos de valoração do consumo mais condizentes com a realidade. Já há iniciativas neste rumo, onde são impostos limites ou preços diferenciados para alimentos mais caros (normalmente carnes), mas que ainda passam distante do objetivo tornar mais equânime a relação entre consumo real e preço cobrado.

As consequências deste cenário deturpado podem ser constatadas quando observamos, em restaurantes de sistema buffet livre ou rodízio, avisos solicitando aos clientes que “não desperdicem alimentos”, pelo fato de que costuma sobrar muita comida nos pratos. Nem poderia ser diferente: quanto todos os consumidores pagam uma mesma quantia para usufruir livremente da comida do restaurante, ela passa a ser vista como um bem “público”, tal qual a água que sai da torneira em um condomínio habitacional que não individualiza os consumos deste bem natural.

Ou seja: a tendência é que ocorra muito desperdício mesmo, e, neste cenário, tanto lavar o carro durante horas, quanto servir-se sem nenhuma preocupação se haverá sobra, são atitudes totalmente previsíveis. Se algo é de todos, não é de ninguém – e aquele produto escasso será tratado como sendo ilimitado.  Contribui para este panorama o fato de que o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o que pode provocar a percepção geral de que a comida farta é inesgotável. De fato, a evolução dos meios de produção e distribuição, e o comércio globalizado, levaram a humanidade a este período de fartura inédito, mas nem por isso devemos considerar admissível que clientes de apetite menos voraz banquem parte da conta dos mais gulosos.

 Outro exemplo claro da mesma circunstância: a política de uma rede de fast food que chegou ao Brasil na última década é de vender refrigerante em sistema de refil. A intenção era apenas que o cliente pudesse usufruir da bebida enquanto come o lanche adquirido na loja. Eis que os brasileiros resolveram ficar tomando refrigerante a tarde toda, e inclusive dividindo a bebida entre amigos. Tal atitude advém da mesma lógica: se todos os clientes pagam “X” para consumir o quanto quiserem, a nossa malandragem inata manda beber até explodir. O resultado: como a empresa não vai arcar com o prejuízo sozinha, todos os demais clientes (inclusive aqueles que tomaram apenas um copo de refrigerante) serão solidariamente penalizados com aumentos do preço dos lanches.

Tal mentalidade acaba se alastrando por diversas outras áreas em que muitos não se importam em sustentar privilégios de outros. Ela revela-se fortemente na estrutura da Previdência Social: todas as contribuições dos trabalhadores são recolhidas para um mesmo fundo, mas os pagamentos retornam em proporções muito diferentes. Será que não deveríamos reivindicar que os descontos efetuados nas remunerações de cada cidadão fossem destinadas a contas individuais, de tal forma que ninguém precisasse trabalhar para pagar aposentadorias com regras especiais de categorias privilegiadas? Parece-me que sim, especialmente porque, desta forma, cada um poderia decidir até que idade está disposto a trabalhar. Se eu quisesse seguir na ativa até 55 anos (percebendo uma aposentadoria menor) ou pendurar as chuteiras com 70 (fazendo jus a remunerações superiores), ficaria a meu critério.

O brasileiro costuma preferir o popular “rachide” ao enjeitado “cada um paga o seu”. E nesse processo, claro, todos tentam ingressar no grupo dos agraciados e sair da turma dos extorquidos. O problema é que estão sobrando poucos “otários” para manter tantos “espertos”. Bom, deixa eu me servir mais uma vez, já que paguei para comer até não aguentar mais…

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10 comentários sobre “Garçom, traz a “Dolorosa” dos Brasileiros “Otários”

  1. O caso da Previdência é talvez o mais emblemático, e com certeza o mais grave. Tenta-se esconder a disfunção (ou déficit) com o argumento que ela, a Previdência, tem outras fontes de financiamento que não apenas as contribuições. Mas isso só piora o argumento, para o bom entendedor. Mas, tirando os cínicos, temos quantos deles por aí?
    Um abraço.

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    1. Pois é, Alexandre. Esse esquema da Previdência, que joga todas as “contribuições” (entre aspas porque são compulsórias) num mesmo bolo, e depois cada um tenta pegar a maior fatia possível, só podia falir o sistema mesmo. Abraço

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  2. Um consumidor que usa a internet eventualmente para acessar e-mails e notícias não compra uma internet de 100 mps, compra uma de 10mps ao contrário de um usuário que quer filmes em ultraHD, baixa torrent 24 horas por dia e compra 5 jogos por mês para seu playstation 4.

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    1. Eduhardo, eu até entendo teu raciocínio : se uma pessoa contratou uma maior velocidade, ela em tese está pagando mais caro por mais dados – o que nivelaria consumo e preço pago. Todavia, o cenário que você descreveu não necessariamente ocorre. Eu faço downloads usando 15 Mb. Meu sogro usa a mesma velocidade pra ler notícias. E tal situação ocorre com frequência. Ademais, mesmo se compararmos dois geeks como os que você descreveu, um deles vai usar mais a banda larga do que o outro. É como a energia elétrica : se eu e meu vizinho temos a mesma capacidade instalada em nossas casas, não significa que teremos a mesma conta de luz. De qualquer fora, esse “retrocesso” no serviço fornecido pelas companhias telefônicas é fruto tão somente do cartel que a Anatel criou e mantém com suas regulações. Abraço

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  3. Gostei do seu blog. Já passou da hora do brasileiro aprender que “não existe almoço grátis”. A mentalidade de que “alguém tem que pagar a minha conta” está afundando o país e exemplos de programas sociais mal sucedidos não faltam. Veja o nosso péssimo transporte público, repleto de isenções e gratuidades. Temos uma tarifa altíssima para quem paga porque nela estão embutidos os “de grátis”. Abraço. Parabéns pelo trabalho.

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  4. Tenho dois comentários a fazer, um sobre o caso da Internet e outro a respeito da Previdência Social.

    No que se refere à Internet, não basta apenas cobrar pelos dados excedentes. É necessário desonerar o custo para os usuários que gastam pouca banda. Porém, o que acontece no Brasil é que, sempre, uma ideia positiva que poderia modernizar as relações de consumo tende a trazer prejuízos aos consumidores. Se um provedor fornece um pacote de 15 Mbps com volume ilimitado de dados por R$ 100, quando puder cobrar por demanda vai partir deste preço para os usuários de consumo mínimo, quando o correto este deveria ser o perfil médio de consumo (por exemplo se em média cada usuário consome 40 GB por mês, um usuário pagando por demanda deveria pagar R$ 100 por 40 GB – por consequência, aquele que só acessa a Internet para ler as notícias do dia deveriam pagar menos do que pagam hoje). No entanto, e o oligopólio que é a área de telecomunicações no Brasil corrobora com isso, todos sabem que a medida irá encarecer para todos.

    Quanto à Previdência, concordo totalmente com a ideia de contas individuais. Isto permite que a pessoa se aposente quando quiser. Mais ainda, se o camarada quiser melhorar sua aposentadoria poderia voltar a trabalhar, suspendendo o recebimento e passando a, novamente, contribuir com a conta… quantas vezes quiser, julgar necessário e a saúde permitir. No entanto, mais do que fazer esta mudança eu sugiro algo mais: por que não permitir que a iniciativa privada crie previdências paralelas de forma que o trabalhador possa optar qual delas contribuir? Inclusive, se o trabalhador não quiser contribuir para nenhuma delas (abrindo mão da aposentadoria futura) e usar o dinheiro como bem entender (ou poupar por conta própria) é um direito.

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    1. “…o oligopólio que é a área de telecomunicações no Brasil corrobora com isso…” Aqui você matou a charada, amigo: as telefônicas no Brasil preocupam-se mais em atender as exigências da Anatel do que em satisfazer os consumidores. E o brasileiro médio, tomado pelo impulso populista, em vez de reivindicar que o Estado abra totalmente o mercado para este setor e permita que dezenas de empresas briguem pelo meu dinheiro, ele prefere implorar que o governo proíba este ou aquele tipo de cobrança. Resultado: mais leis, mais estado.

      Quanto à Previdência, este sistema já funciona no Chile há décadas. Foram necessários alguns ajustes no caminho, especialmente porque, quando da adoção da fórmula de contas individuais, ainda havia muita informalidade no país, mas hoje o saldo é muito positivo para os contribuintes e (especialmente) para as contas públicas.

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