JOY: O Nome do Sucesso – e do Empreendedorismo

Joy

A empresária e apresentadora norte-americana Joy Mangano teve sua vida retratada pelo diretor David O. Russell em 2015, em uma trama que emula o labirinto atribulado e cheio de percalços que costuma permear o caminho daqueles graças a quem, hoje, a maioria de seis bilhões de habitantes da terra pode usufruir de um padrão de vida superior àquele desfrutado pelos mais abastados aristocratas do século XVIII: os empresários que produzem bens de consumo em massa.

A trajetória da protagonista ilustra com rigor os elementos que permitem o enriquecimento individual e de uma nação: a possibilidade de agregar valor a matérias-primas por meio de ideias inovadoras. No caso em questão, plástico e algodão viram um instrumento (um simples esfregão de cozinha) que melhora a vida de muitas pessoas, na medida em que proporciona praticidade e economia de tempo, a um custo que cabe no bolso de praticamente toda a população – graças também ao desenvolvimento recente de métodos de produção em série e à evolução constante dos meios de transporte e logística.

O advento de uma inovação, pois, gera não apenas novos produtos, mas também novas empresas (que irão atender às necessidades da companhia principal detentora da invenção revolucionária, como marketing e outras atividades-meio) e várias novas indústrias, produzindo riqueza que, durante cada etapa do processo produtivo, será distribuída por toda a economia.

Tanto o lampejo intelectual propriamente dito quanto a viabilidade de colocá-lo em prática são fatores sem os quais a economia de um país será fadada a ser uma eterna exportadora de commodities. Portanto, a valorização do conhecimento em uma determinada cultura (obrigado por nada, Paulo Freire), aliada à liberdade para empreender formam uma combinação capaz de elevar a qualidade de vida de todos os cidadãos, especialmente daqueles menos favorecidos.

A escalada social perpetrada pela personagem principal, aliás, seria proeza irrealizável antes do advento do capitalismo. Na época em que títulos de nobreza valiam mais do que o mérito (antes da revolução industrial), o status de uma pessoa permanecia inalterado por toda sua existência – como ainda ocorre em países de economia planificada, como a Índia. Joy não se torna a “rainha dos esfregões” porque herdou tal condição, mas porque se preocupou com as necessidades e desejos dos outros. E assim que ela não mais reunir condições de prestar a seus clientes um serviço melhor e de mais baixo custo que o oferecido por um eventual concorrente, perderá a coroa com certeza.

Ademais, trabalhadores são pagos de acordo com o que produzem – ou seja, conforme a produtividade marginal da empresa na qual laboram. Se um empregado conseguia produzir X em um posto de trabalho essencialmente manual, e hoje produz 3X graças à adoção de soluções tecnológicas, esta ampliação na produção possibilitará um acréscimo na remuneração deste empregado. E tanto mais fácil será para o empregador implementar tais aprimoramentos quanto menos burocracia estatal e impostos estiverem entre suas preocupações diárias.

Em países ricos, em que os trabalhadores fazem uso de máquinas e bens de capital tecnológico de última geração em suas atividades, eles conseguem atingir uma maior produtividade, o que lhes permite, inclusive, trabalhar menos.  Já nos países em desenvolvimento, que não disponibilizam tais meios de produção mais eficientes para os obreiros (o que faz com que eles sejam menos produtivos), não resta alternativa senão trabalhar mais para atingir a mesma produção alcançada por um trabalhador de um país desenvolvido. Eis porque (entre outros motivos) a qualidade de vida de um trabalhador da Alemanha supera a de um brasileiro por muito. E aí está uma boa razão para que inovações sejam sempre fomentadas – tais como a testemunhada no filme.

Todos os desafios enfrentados por Joy fazem parte da biografia da maioria dos empreendedores (pelo menos daqueles que não são apadrinhados pelo BNDES nem possuem laços com governantes): convencer investidores da exequibilidade da ideia (eis aqui a importância do capital poupado); conseguir produzir dentro de patamares que permitam retorno financeiro para o investidor e reinvestimento constante (caso contrário, a empresa corre o risco de se tornar obsoleta e insolúvel); lidar com a teia de legislações que regem a atividade econômica (no roteiro em questão, resta clara a importância de proteger o direito intelectual, como forma de estimular pesquisas e avanços tecnológicos); levar ao conhecimento dos potenciais consumidores os predicados do bem ofertado; superar traições de competidores e dentro da própria sociedade (e aqui reside a relevância de um sistema judicial célere e que proporcione segurança jurídica).

Chama a atenção, por sinal, o quanto alguns membros da família de Joy atrapalham sua jornada. No clássico “A Mentalidade Anticapitalista”, Ludvig Von Mises define muito bem este tipo de sanguessuga (sob a alcunha de “primos”) que se presta tão somente a tornar ainda mais árduo o processo de emancipação e de manutenção do patrimônio amealhado pelo empreendedor: “Os “primos” recebem seus rendimentos da firma ou empresa. Mas são estranhos à vida de negócios e nada sabem sobre os problemas que o empresário deve enfrentar. São educados em modernas escolas e faculdades, cujo ambiente é marcado por um desprezo arrogante referente ao mecânico enriquecimento. Alguns deles passam o tempo em clubes, boates, apostam e jogam, divertem-se e farreiam, chegando à devassidão. Outros, amadoristicamente, ocupam-se com pintura, literatura ou outras artes. Por isso, a maioria é de pessoas desocupadas e inúteis.”

Ou seja, não é nada incomum que filhos e parentes de “capitalistas” (como se todos nós, que fazemos trocas voluntárias todos os dias, também não o fossemos) acabem desprezando o capital que assegura suas vidas pacatas – como bem elucidou Rodrigo Constantino em seu Best-seller A Esquerda Caviar. Não convém olvidar que Dilma Rousseff era filha de um comerciante de classe média alta, e o resultado de seu desprezo pelo trabalho do pai que chegou ao Brasil paupérrimo, fugindo de um regime comunista, todos nós conhecemos – e sentimos seus efeitos na pele até hoje.

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Afora esse invento, Joy criou ainda diversos outros produtos, como cabides que não ocupam espaço no roupeiro, malas com compartimentos específicos para acessórios, óculos de leitura vendidos em kits, panelas feitas de material ecológico, dentre outros. Ela hoje acumula o registro de mais de 100 patentes.

Tal empreitada, no entanto, não a impediu de ser mãe e criar dois filhos, mesmo em meio a tantas dificuldades. E o mais importante: por não fazer parte de nenhum grupo “merecedor” de tratamento diferenciado da sociedade (as famigeradas minorias), ela precisou mostrar do que era capaz, mais de uma vez, sem receber privilégios estatais. Qualquer semelhança com o tratamento dispensado a brasileiras como Joice Hasselmann, cuja demissão da revista Veja foi celebrada por grupos de Esquerda – os quais, em seguida, precisaram amargamente assistir a ascensão meteórica de sua carreira solo de repórter – não é mera coincidência: pessoas que demonstram não precisar do Estado para subir na vida (nem demandam cotas de qualquer espécie) não servem à “causa” socialista, e não fazem jus à “proteção” de feministas e demais grupelhos.

Enfim, os riscos e incertezas pelo caminho do empreendedorismo sãos muitos e variados, e o final nem sempre é feliz. Mas as chances de sucesso melhoram bastante quando o talento é reconhecido e valorizado. Este, aliás, um divisor de águas no filme: quando o personagem de Bradley Cooper aposta suas fichas em Joy. E aqui vale ressaltar: ele não o faz por se tratar se uma mulher bonita, mas porque percebeu estar diante de alguém com fibra e disposição para alcançar grandes feitos (e, claro, auferir lucros, satisfazendo consumidores e mantendo-os voluntariamente fiéis à marca patrocinada).

Pessoas com estômago para desempenhar papéis como estes (na vida real) não nascem a cada cinco minutos, e devem(riam) ser valorizadas e tratadas com deferência, e não como exploradoras (adjetivo que cabe bem melhor ao Estado intervencionista). Jennifer Lawrence foi laureada pela academia de Hollywood por sua interpretação sendo indicada para a estatueta de melhor atriz, mas tenho certeza que cada brasileiro que se esmera diariamente tentando erigir uma empresa (desde os microempresários que o fazem por necessidade em face do desemprego em alta, até aqueles que alavancam o desenvolvimento de regiões inteiras) deveria ser igualmente premiado – especialmente com mais liberdade econômica, uma vez que, desta forma, tanto trabalhadores como consumidores (os quais são, em verdade, as mesmas pessoas) seriam beneficiados. Quem sabe até sobraria uma grana para ir ao cinema…

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Escola Sem Partido: Um Caso Concreto

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O projeto “Escola Sem Partido” ambiciona romper com uma tradição fortemente arraigada no Brasil: a utilização das salas de aula como verdadeiros palanques de proselitismo em favor do ideário Esquerdista. Um dos países onde a doutrina de Antonio Gramsci mais floresceu – rendendo frutos do naipe de Maria do Rosário e Marilena Chauí –, o Brasil nunca logrou impedir que seus alunos, desde a mais tenra idade, fossem transfigurados em papagaios do antiamericanismo, anticapitalismo, e outros ismos da agenda comunista. Aulas de história e geografia, especialmente, vêm se prestando tão somente a propagandear ideologias “progressistas”. E o objetivo principal do ESP é, justamente, determinar que sejam oferecidas aos alunos diferentes perspectivas, permitindo que eles próprios posicionem-se e tracem seus caminhos rumo ao Conservadorismo, ao Liberalismo ou ao Coletivismo. E é justamente essa oportunidade de escolha, reiteradamente negada em nossos colégios, que um professor de Canoas/RS vem tentando proporcionar a seus estudantes.

Professor de Física e Matemática, Wilson Delfino dos Santos Júnior tem feito o contraponto à cartilha de Paulo Freire na Escola Estadual de Ensino Médio Barão do amazonas. Diante do olhar perplexo de alunos acostumados a ouvir sempre as mesmas abordagens com viés de Esquerda, ele procura demonstrar, no transcurso de suas aulas, conceitos básicos de microeconomia, de forma a estimular o empreendedorismo (e mudar a imagem dos empresários de “capitalistas exploradores” para pessoas que geram valor para a sociedade), explicar como são formados os preços no mercado, e até mesmo elucidar conceitos como “utilidade marginal” – citando, inclusive, economistas da Escola Austríaca.

Demasiadamente complexo para alunos do ensino médio? Não quando esse professor utiliza tal método durante uma aula de funções do primeiro grau, por exemplo, relacionando curvas de demanda e oferta com gráficos matemáticos.

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A melhor forma de contra argumentar as ruidosas reações da maioria dos professores, os quais alegam que “seria impossível” cumprir o que propõe o ESP, sob o pretexto de que a lei representaria uma mordaça, é demonstrar, na prática, como seriam as aulas no futuro: sem alunos lobotomizados por um único discurso, e usufruindo da chance de analisar vários pontos de vista e eleger qual deles norteará sua vida.

Alguns deles, aliás, já fascinados pela didática do Sr Wilson, fazem parte do time de futebol “Opressores”, que disputa o torneio do colégio, cujo uniforme ostenta a figura de Ludvig Von Mises, e estampa o nome de pessoas que contribuíram com a disseminação dos ideais liberais e conservadores no Brasil e no mundo, como Friedrich Hayek e Rodrigo Constantino. Já estão nas quartas-de-final. Go, oppressors!

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O nome do time, aliás, é um claro deboche com o sentimento da Esquerda que, quando contrariada em seus dogmas universais, costuma sentir-se ofendida, muito embora, da boca para fora, defenda a diversidade. E aí entra o papel do ESP, na medida em que tornará o cenário atual (totalmente homogêneo em educadores marxistas), mais “temperado”, com aulas permeadas pelo Liberalismo econômico e pelo Conservadorismo. E que vença o melhor. A concorrência é sempre benéfica para os consumidores, e não será diferente com nossos alunos.

O pânico dos defensores do status quo com o ESP apenas denota que os educadores-militantes sabem que a ideologia marxista não subsiste ao confronto de ideias, sendo facilmente refutada pela própria realidade. Sem doutrinação maciça desde a infância que solidifique artificialmente a inveja como meio de vida (se eu não tenho o que quero é porque alguém tirou de mim – como se a economia fosse um jogo de soma zero e como se as conquistas não exigissem esforço), as tendências socialistas de nosso povo devem minguar, contribuindo para mitigar a mentalidade populista e assistencialista do brasileiro.

Já passou da hora do monopólio artificial da Esquerda em sala de aula acabar, e o Escola Sem Partido promete derrubar as barreiras para entrada de novas visões nas lousas, permitindo que os alunos vejam o mundo por ângulos diferentes. A propósito, este seria um bom tema para a próxima aula do professor Wilson…

Em tempo: enquanto este texto era redigido, o Opressores FC foi eliminado do torneio. O futebol imita a vida: a Esquerda prevalece na escola. Eis porque o Escola Sem Partido é um projeto dos mais importantes da história nacional. Palavras do capitão da equipe após a desclassificação: “Sem problemas. Se nosso time era fraco, deveria ser eliminado mesmo, sem nenhuma espécie de protecionismo (tal qual empresas ineficientes devem falir no livre mercado e ser incorporadas por aquelas que geram mais valor a menores custos). Os consumidores do esporte (expectadores do campeonato) saem ganhando, e nós somos estimulados a atuar em outras áreas, até encontrar o sucesso. Graças a essa eliminação, um dos alunos do time pode ficar desiludido com o futebol, começar a jogar vôlei e virar atleta olímpico – o que jamais ocorreria se fosse instituída uma “cota para pernas de pau”.

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O Bloqueio do Whatsapp X A Liberação de Crimes

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Toda vez que o Whatsapp é bloqueado por decisão judicial, a maioria das pessoas tem a sensação de ter sido trancafiada em uma sala escura por algumas horas, tal a relevância desta ferramenta que conecta amigos com amigos, clientes com fornecedores, chefes com empregados, e… bandidos com bandidos. Sim, este fato precisa fazer parte do debate que busca equacionar a privacidade dos usuários do aplicativo com a persecução penal.

Afinal, tão importante quanto assegurar que o Estado não interfira em nossas vidas além do estritamente necessário para preservação de direitos fundamentais de terceiros, é impedir que terceiros releguem ao segundo plano nossas vidas, com a conivência ou omissão dos membros do Judiciário, da Polícia e do Ministério Público, cuja razão maior de existirem consiste, justamente, em reprimir delitos, imputando penas aos transgressores com a finalidade de preservar a estabilidade da sociedade e possibilitar o seu desenvolvimento.

Demandar a proibição de algo por meio de imposição legal faz parte do repertório do brasileiro. É desagradável jantar em um restaurante com pessoas fumando ao lado? Clama-se por normas estatais que vetem por completo tal prática. Uma alternativa viável seria o Estado ter delegado aos comerciantes autonomia para permitir ou não que seus clientes fumassem – o que daria origem a estabelecimentos de fumantes, de não fumantes, que permitissem ambos em dias e/ou horários alternados, enfim, todas as demandas seriam atendidas por empresários ávidos por consumidores contemplados por sua política de (in)tolerância à fumaça.  Mas daí o Estado babá (assistencialista) não poderia embalar o cidadão sequioso por “proteção” governamental.

Ora, se rogamos que a administração pública interfira em nossas relações com tanta frequência, resolvendo conflitos em nossas vidas e tomando decisões em nosso lugar, não deveria surpreender quando o Legislativo impede os pais de aplicarem um puxão de orelha nos filhos em seu processo de educação, quando o Inmetro proíbe a venda de lâmpadas incandescentes, ou quando a Justiça suspende a utilização de um aplicativo usado por mais de cem milhões de brasileiros – especialmente para trabalhar.

Some-se a isso o fato de que os departamentos de Humanas das universidades (onde abrigam-se os cursos de Direito) são verdadeiros redutos do pensamento coletivista (notadamente após a revolução cultural dos anos 1960, quando vários países ocidentais experimentaram uma guinada à esquerda), e temos o cenário em que a vasta maioria de Juízes, Promotores e Procuradores são adeptos da filosofia segundo a qual os indivíduos não são capazes de andar com as próprias pernas, e necessitam de seres clarividentes ditando-lhes que rumo tomar em cada encruzilhada de suas vidas.

Todavia, seria interessante ponderar se, desta feita, esta interferência do Estado não é imprescindível, na medida em que, ao determinar o bloqueio do aplicativo, interrompendo o sigilo de comunicação, seguindo dispositivos legais que regulam a matéria, o juiz que assim procede objetiva dar eficácia ao desejo do legislador constituinte de resguardar a segurança da sociedade, nos termos do 5º da Carta Magna. No momento em que, sob o pretexto de assegurar a liberdade de expressão e preservar a continuidade de um serviço, condenamos tal decisão judicial, não estaremos assegurando a criminosos de toda espécie um canal seguro (já que inacessível aos investigadores) para sua operações ilícitas?

O usufruto de nenhum direito civil deve ser absoluto: a liberdade de manifestação do pensamento não pode ser alegada para expressar injúrias raciais; a garantia à inviolabilidade do domicílio não pode ser invocada para ocultar a prática de atividades criminosas. Neste sentido, o direito à privacidade nas mensagens trocadas por usuários do Whatsapp deveria servir de justificativa para que seguidores do Estado Islâmico pudessem arquitetar, mansamente, um ataque terrorista direcionado à cerimônia de abertura dos jogos olímpicos, por (macabro) exemplo? Ou, quem sabe, pedófilos nem precisem mais utilizar a internet profunda para trocar fotos de crianças nuas, já que usando o Whatsapp a certeza da impunidade será absoluta.

Aqui cabe uma comparação com situações sui generis que, vez por outra, ocorrem no Brasil, e que são geradas a partir do conflito entre o direito constitucional dos trabalhadores a um ambiente de trabalho seguro com o direito constitucional de todos os demais pagadores de impostos à saúde: a coleta de lixo. Nestes casos, o que deve prevalecer? Não me parece razoável interditar a atividade até que sejam atendidas as exigências normativas, visando à prevenção de acidentes laborais com os coletores, se, para isso, toda a população de uma cidade precisar ficar exposta a doenças, em decorrência do lixo acumulado nas ruas. Tais querelas costumam ser sanadas seguindo um trâmite que poderia, em tese, nortear o caso em tela: o Judiciário suspende a interdição promovida pela autoridade administrativa, e concede um prazo para que a companhia faça as adequações necessárias – ao fim do qual os efeitos da interdição voltam a vigorar – normalmente estipulando, ainda, multa diária.  Tal caminho, no entanto, não pode ser trilhado neste imbróglio, visto que o Facebook já deixou claro que sequer cogita a hipótese de quebrar a segurança de seu sistema. Não adianta conceder prazo ou aplicar multas para uma empresa bilionária que declara abertamente que não irá atender à requisição judicial.

É sabido, contudo, que o que estaria em jogo, caso o Facebook decidisse cumprir integralmente a determinação judicial, seria muito mais do que o risco de conversações de foro íntimo serem trazidas a público. O princípio da criptografia envolve não apenas fechar o cadeado, mas também jogar a chave fora – de tal forma que nem mesmo a empresa de comunicação a possui. Modificar este sistema, de maneira a permitir que esta chave fique embaixo do tapete, para o caso da Justiça precisar entrar, abriria um verdadeiro portal para hackers, que comprometeria, inclusive, a segurança de movimentações bancárias.

A operação lava jato logrou demonstrar o quão importante são as interceptações telefônicas (e de mensagens de e-mails) para a apuração de crimes contra o patrimônio público. Nada mais natural, nesta conjuntura, que corruptos e corruptores passem a utilizar aplicativos com mensagens criptografadas para escapar da vigilância das forças de imposição da lei. Eis porque o argumento segundo o qual os investigadores deveriam “buscar outros meios” de comprovar a culpa dos infratores soa deveras infrutífero, uma vez que  absolutamente todos os atos ilícitos podem ser conduzidos sob o manto da codificação indecifrável.

E a dimensão do problema aumenta quando levamos em conta que, além do Whatsapp, ainda há outros aplicativos do gênero que fazem uso da mesma tecnologia, o que obrigaria o Estado a exigir que todos eles rezassem por sua cartilha. Como se não bastasse, existem meios de acessar o Whatsapp mesmo durante o período de bloqueio no Brasil.

Ou seja, estamos diante de um problema dos mais complexos, e até mesmo por isso o debate deve considerar todos os aspectos pertinentes. Um país que não consegue nem mesmo impedir que presidiários comandem suas facções usando celulares, depara-se, de repente, com uma controvérsia muito mais intricada. Não chegaremos, pois, a um denominador comum somente criticando aqueles que, atualmente, estão de mãos atadas frente a evidências de crimes camufladas pelo véu da tecnologia da informação. No país da impunidade, alimentá-la ainda mais pode dar origem a um Frankenstein verde e amarelo – e possibilitar que o “Victor” faça uma visitinha surpresa ao Maracanã em agosto…

EDITADO: Vejam a diferença quando o Facebook colabora com a Justiça. Ajudaram a impedir um ataque terrorista em plenos jogos olímpicos!

Facebook liberou dados de investigados por terrorismo, diz juiz

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Pokémon Go na mira da burocracia

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Artigo publicado pelo portal parceiro deste blog VoltemosaDireita.com:

Por Fernando Fernandes:

Fenômeno ou modinha? A nova sensação do momento é o jogo de realidade aumentada Pokémon Go.  Elogiado por milhares de entusiastas de jogos, justamente por tornar ogameplay algo muito menos sedentário e isolado,  incentiva que gamers interajam pelas ruas e praças do “mundo real” ao invés de se enclausurarem no “mundo virtual” para pegar seus Pokémons..

O jogo desenvolvido em colaboração entre a Niantic Inc., Nintendo e a The Pokémon Company despertou seu gigantesco universo de fãs, entre eles muitos adultos nostálgicos, prometendo promover a experiência de transformar a nossa paisagem offline em uma escala nunca vista antes.

Tal como outras tecnologias disruptivas como Netflix, Uber, AirBnb, Spotify e até o Facebook, o jogo da gigante japonesa não é um mero acaso, mas é o fruto de uma série complexa de redes de indivíduos em muitos lugares do mundo, seja em cooperação ou em regime de concorrência, que criaram as condições para tornar possível a popularização dos microcomputadores e dossmartphones.

Apenas um sistema econômico livre com esse, e que assegure a propriedade privada, é capaz de criar o incentivo adequado para que o lucro surja como um prêmio às benfeitorias ou bem-estar gerados pela criatividade e por soluções inovadoras. Entretanto, assim como no Brasil, pelo mundo afora ainda existem burocratas com certa fixação mórbida pela regulamentação da atividade econômica. Uma sanha autoritária que deseja restringir as liberdades individuais e nossa capacidade de encontrarmos soluções inventivas para os problemas.

Da Rússia vem o exemplo típico dos “estadólatras”, honrando sua tradição autoritária. Por lá os funcionários do governo já determinaram que o jogo não será tolerado em ambientes com significado religioso, nos cemitérios ou repartições do governo. Ademais, deixam claro que poderão ser impostas outras restrições ao jogo que venham a considerar necessárias para, supostamente, garantir a segurança dos jogadores. Especula-se que jogadores pegos jogando nas fronteiras internacionais ou dentro igrejas poderão ter até três anos de prisão.

Em Nova Iorque, um deputado está considerando a elaboração de algum tipo de regulamentação para restringir o jogo, alegando que “Pokemon GO”, que envolve o combate entre “monstrinhos digitais” poderia conduzir a “trágicas consequências no mundo real”.  O político democrata Felix Ortiz, uma espécie de mistura entre a Bela Gil e o Edir Macedo –  em razão da sua luta pela proibição do uso de sal em restaurantes, os impostos sobre o álcool, açúcar e bebidas, bem como clubes de strip-tease – diz que a Nintendo deveria ter uma responsabilidade solidária no caso de problemas ligados ao App que representarem risco à segurança pública ou no distúrbio da tranquilidade local.

Como o caro leitor pode perceber, nem a “land of oportunity” fica de fora do apreço por criar barreiras à liberdade. É evidente que ambos os países usados como exemplo já possuem legislações contra a invasão de propriedade, a exposição de bens a perigo e, principalmente, contra a condução usando celular. Contudo, o desejo – mesmo o bem intencionado – de alguns políticos por tutelar em nome “do povo”, “da comunidade” e outros abstratos coletivistas só fazem diminuir as condições necessárias para as redes de indivíduos que falamos anteriormente: aquele que constrói um sistema criativo, inventivo e economicamente livre.

De modo algum a regulamentação é essencial para o desenvolvimento econômico ou sequer necessária para enriquecer e fazer prosperar um país. Diferente daquilo que parece ser o senso comum brasileiro, regulamentar qualquer atividade é um enorme ciclo vicioso. Escravizam-se os talentos e os esforços pessoais para favorecer dinastias políticas. Rouba-se os recursos dos investimentos em produção para injetá-los em lobbies, politicagem e corrupção.

A regulamentação não protege o empreendedor nem o consumidor! Ela favorece o burocrata, o político, o parasitismo governamental. Governos intervencionistas não se contentam em criar as supostas “regras do jogo”. Ao contrário, fazem que as tais “regras” sejam ruins ao ponto de que seja obrigatório recorrer a um parasita do governo para ser possível jogar “o jogo”.

O desejo de regulamentar é o mesmo de corromper. Vence, aqui, quem entrar no esquema que define os vencedores.

 

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Garçom, traz a “Dolorosa” dos Brasileiros “Otários”

Homer

Na esteira da iminente entrada em vigor da lei que tornará obrigatória a individualização das contas de água em condomínios habitacionais, proponho uma reflexão sobre uma particularidade do Brasil na hora de pagar a conta do restaurante: a cobrança por peso, ou por pessoa (independentemente do consumo). Seria mesmo correto 400 gramas de camarão custarem menos que 450 gramas de arroz? E por que um glutão deve pagar o mesmo que alguém que sequer repete o prato? Acredito que tal procedimento típico do Brasil (é raro deparar-se com tal sistema mundo afora) reflete sobremaneira nossa mentalidade coletivista, e demonstra uma clara tendência do brasileiro a abusar de um direito quando pode dividir a respectiva despesa com outras pessoas – como não poderia deixar de ser, aliás.

Vejamos a semelhança com outro episódio recente, quando as empresas de telefonia propuseram que os usuários dos serviços de banda larga fossem tarifados conforme a quantidade de dados que consumissem, e não mais apenas com base na velocidade contratada (e raramente entregue pela companhia, diga-se). Parecia razoável: alguém que usa a internet apenas para acessar websites deve pagar o mesmo que outro consumidor que faz downloads pesados 24 horas por dia? Não seria mais adequado oferecer pacotes para os diferentes perfis de internautas, desde os aficionados até aqueles que utilizam o serviço apenas eventualmente?

A resposta para essas perguntas passa pela seguinte constatação: empresas de telefonia (ou de qualquer outra atividade econômica) não vivem de caridade. O custo para fornecer a banda de internet para o internauta eventual e para o “viciado” certamente será compartido entre ambos. Com a legislação vigente, todavia, se eles contratam a mesma velocidade, pagam o mesmo valor. Ou seja: quem consome menos está pagando para quem consome mais. Se alguma companhia pretende oferecer a possibilidade de quebrar essa distorção, medindo o consumo de dados e cobrando conforme a utilização, o Estado brasileiro não deveria impedi-la. Os usuários insatisfeitos com tal modelo poderiam procurar alternativas na concorrência, pois sua demanda por um “buffet livre” de internet seria, por certo, atendida por outras empresas do ramo de olho neste nicho – especialmente se as barreiras para entrada no setor fossem derrubadas pela Anatel, permitindo que a competição no setor aumentasse substancialmente, em benefício dos consumidores (especialmente daqueles que não passam o dia inteiro online).

Nesse mesmo sentido, o custo dos alimentos consumidos em uma refeição, considerados dois pratos servidos de igual peso, dificilmente será o mesmo, considerando que as predileções dos indivíduos variam muito. Mas como o dispêndio total dos alimentos consumidos em uma determinada ocasião, em um dado estabelecimento, deverá ser custeado por todos que usufruíram do serviço (não importando se consumiram 500 gramas de picanha ou costela, cortes de valor muito diferenciado), novamente nos deparamos com a situação onde consumidores de diferentes perfis são tratados de forma homogênea. A mesma discrepância ocorre no sistema de “all you can eat”, onde determinadas pessoas acarretam prejuízo para o restaurante, e outras lucro, sendo que essas, na prática, pagam parte do almoço daquelas.

Esse expediente de “somar tudo e dividir por todos” é bastante comum em confraternizações entre amigos e parentes. Raramente alguém irá se importar se o fulano comeu mais que o beltrano no almoço de Páscoa. Mas essa concepção, na qual se justifica que certos cidadãos sejam beneficiados em detrimento de outros, com a coletividade bancando parte do consumo de determinados indivíduos, não se sustenta quando se trata de pessoas que não se conhecem e, não raro, nunca virão a se conhecer. Todavia, no Brasil, já estamos acostumados a lidar com esse tipo de iniquidade, quando os frequentadores de cinemas e show artísticos bancam a meia entrada de diversos beneficiários; quando o BNDES concede empréstimos com juros subsidiados a determinadas empresas detentoras de laços com governantes (utilizando até mesmo recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT); quando universidades públicas são custeadas com impostos de brasileiros que nunca sequer chegaram perto de uma – ao passo que os favorecidos, em vez de justificar tal sacrifício popular dedicando-se aos estudos, preferem “fazer greve” e praticar bizarrices as mais diversas, até porque não desembolsam nem um tostão com seus estudos.

É claro que existem restaurantes que adotam o sistema à la carte, e mais lógico ainda é que, se há tantos outros que vendem comida por quilo ou no buffet livre, existe demanda para tal. Longe de mim, pois, querer que o Estado intervenha e determine de que maneira os comerciantes devem cobrar por seus produtos e serviços, tal qual ocorreu anos atrás, quando o governo determinou que padarias deveriam vender o pão francês por peso, desagradando empresários e consumidores – e, claro, justificando a criação de “fiscais de balança” (leia-se: mais Estado e impostos).

O que estou preconizando é que os próprios consumidores apercebam-se da incongruência de onerar pessoas que consomem menos em favor de outras que consomem mais, e passem a demandar que os restaurantes empreguem métodos de valoração do consumo mais condizentes com a realidade. Já há iniciativas neste rumo, onde são impostos limites ou preços diferenciados para alimentos mais caros (normalmente carnes), mas que ainda passam distante do objetivo tornar mais equânime a relação entre consumo real e preço cobrado.

As consequências deste cenário deturpado podem ser constatadas quando observamos, em restaurantes de sistema buffet livre ou rodízio, avisos solicitando aos clientes que “não desperdicem alimentos”, pelo fato de que costuma sobrar muita comida nos pratos. Nem poderia ser diferente: quanto todos os consumidores pagam uma mesma quantia para usufruir livremente da comida do restaurante, ela passa a ser vista como um bem “público”, tal qual a água que sai da torneira em um condomínio habitacional que não individualiza os consumos deste bem natural.

Ou seja: a tendência é que ocorra muito desperdício mesmo, e, neste cenário, tanto lavar o carro durante horas, quanto servir-se sem nenhuma preocupação se haverá sobra, são atitudes totalmente previsíveis. Se algo é de todos, não é de ninguém – e aquele produto escasso será tratado como sendo ilimitado.  Contribui para este panorama o fato de que o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o que pode provocar a percepção geral de que a comida farta é inesgotável. De fato, a evolução dos meios de produção e distribuição, e o comércio globalizado, levaram a humanidade a este período de fartura inédito, mas nem por isso devemos considerar admissível que clientes de apetite menos voraz banquem parte da conta dos mais gulosos.

 Outro exemplo claro da mesma circunstância: a política de uma rede de fast food que chegou ao Brasil na última década é de vender refrigerante em sistema de refil. A intenção era apenas que o cliente pudesse usufruir da bebida enquanto come o lanche adquirido na loja. Eis que os brasileiros resolveram ficar tomando refrigerante a tarde toda, e inclusive dividindo a bebida entre amigos. Tal atitude advém da mesma lógica: se todos os clientes pagam “X” para consumir o quanto quiserem, a nossa malandragem inata manda beber até explodir. O resultado: como a empresa não vai arcar com o prejuízo sozinha, todos os demais clientes (inclusive aqueles que tomaram apenas um copo de refrigerante) serão solidariamente penalizados com aumentos do preço dos lanches.

Tal mentalidade acaba se alastrando por diversas outras áreas em que muitos não se importam em sustentar privilégios de outros. Ela revela-se fortemente na estrutura da Previdência Social: todas as contribuições dos trabalhadores são recolhidas para um mesmo fundo, mas os pagamentos retornam em proporções muito diferentes. Será que não deveríamos reivindicar que os descontos efetuados nas remunerações de cada cidadão fossem destinadas a contas individuais, de tal forma que ninguém precisasse trabalhar para pagar aposentadorias com regras especiais de categorias privilegiadas? Parece-me que sim, especialmente porque, desta forma, cada um poderia decidir até que idade está disposto a trabalhar. Se eu quisesse seguir na ativa até 55 anos (percebendo uma aposentadoria menor) ou pendurar as chuteiras com 70 (fazendo jus a remunerações superiores), ficaria a meu critério.

O brasileiro costuma preferir o popular “rachide” ao enjeitado “cada um paga o seu”. E nesse processo, claro, todos tentam ingressar no grupo dos agraciados e sair da turma dos extorquidos. O problema é que estão sobrando poucos “otários” para manter tantos “espertos”. Bom, deixa eu me servir mais uma vez, já que paguei para comer até não aguentar mais…

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O Salário como Preço do Trabalho, e a Crise Aérea de 2006/2007:

ATC I

Aproveitando o gancho do levante perpetrado por militares na Turquia, proponho rememorar um episódio ocorrido há quase dez anos no Brasil, que também consistiu em uma insurreição por parte de membros das Forças Armadas: a famigerada crise aérea, emanada a partir da tragédia do voo Gol-1907. As motivações dos dois eventos são muito díspares, contudo: enquanto o primeiro é movido, basicamente, pelo conflito entre aqueles que defendem o governo secular (laico) e os que apoiam a fusão entre religião (islâmica) e Estado naquele país, o segundo tratava-se de uma reivindicação de controladores de tráfego aéreo por condições adequadas de trabalho, não muito diferente de protestos realizados por outras categorias profissionais. Para melhor entender as raízes do “caos aéreo”, faz-se necessário proceder a uma abordagem sobre a formação de preços no mercado (e a correlata fixação de salários), bem como analisar o modelo de gestão do tráfego aéreo adotado no Brasil.

Basicamente, o preço de um determinado bem é definido pela relação entre oferta e demanda. A preferência subjetiva dos consumidores por certo produto desempenha papel crucial em sua valoração. Eis porque uma empresa pode captar bilhões “apenas” desenvolvendo um joguinho de celular: se todos que fazem o download do aplicativo consideram relevante o valor gerado pela companhia (diversão), então cada um deles estará contribuindo para elevação do preço das ações destaa empresa no mercado financeiro, na medida em que reforçam a demanda por seu produto.

No mesmo sentido, o trabalho prestado é também precificado pela sociedade de forma subjetiva, posto que a ela é facultado atribuir diferentes graus de importância a cada um dos ofícios. Pode parecer absurdo um jogador de futebol de alto nível ganhar mais do que um neurocirurgião, mas essa aparente incongruência é resultado do fato de que bilhões de pessoas no mundo podem usufruir simultaneamente do valor gerado (entretenimento) por um único jogador, especialmente a partir da evolução dos meios de transmissão (que transformaram o esporte em um negócio de cifras colossais), ao passo que o médico só pode operar um paciente por vez.

Ademais, por mais árdua que seja a formação de um profissional de medicina, ainda assim é mais provável serem formados novos “Ivos Pitanguys” do que surgirem novos “Pelés”, ou seja, o jogador diferenciado é mais raro do que um médico de destaque em sua área.

Outrossim, a relação entre os recursos que circulam em uma dada atividade econômica e o número de profissionais a serem remunerados também desempenha importante papel, uma vez que nenhum de nós (ao contrário do governo federal) possui uma máquina de imprimir dinheiro. É fácil observar tal conceito quando consideramos futebolistas de nosso país que não estão empregados em clubes de série “A”: 82% dos jogadores de futebol no Brasil recebem até dois salários mínimos, como decorrência da menos favorável relação entre capital e trabalhadores (menores patrocínios e maior número de jogadores) nas divisões inferiores.

Por fim, a demanda de um determinado setor por profissionais específicos influencia substancialmente os salários: como o Brasil forma poucos profissionais em Tecnologia da Informação, estes são muito procurados e valorizados, ao passo que, como há quase uma faculdade de Direito em cada esquina do país, advogados são trabalhadores com cotação em queda nos últimos anos.

E os salários fixados por lei? Bom, estes servem unicamente para causar desemprego, já que limitam a capacidade de contratação dos empregadores e costumam ser estabelecidos com base em critérios populistas, e não com lastro em aumento de produtividade das empresas. Basta sopesar que a Suécia não adota políticas de salário mínimo, e, ainda assim, as remunerações pagas são consideravelmente altas. Possivelmente os escandinavos tenham entendido que só existe uma maneira de elevar salários de forma sustentável, qual seja, aumentando o capital disponível em relação à população – façanha obtida com sucesso por uma das economias mais liberais do planeta: em 2015, sua renda per capita girou em torno de US$ 50.539, ao passo que no Brasil esbarrou em US$15,7 mil.

Pois bem: onde se encaixam os controladores de tráfego aéreo nesta conjuntura? Qual seria o valor gerado pelo trabalho deles? São, essencialmente, dois:

  • Segurança: Além do caráter óbvio deste atributo (preservação de vidas), um órgão de tráfego aéreo que consegue manter segura a porção de espaço aéreo sob sua incumbência (leia-se: com um baixo e aceitável número de incidentes – quando os requisitos mínimos de separação entre aeronaves são desrespeitados) contribui para que os passageiros confiem no sistema, possibilitando que cada vez mais pessoas que outrora não voavam por fobia de andar de avião passem a utilizar este meio de transporte;
  • Celeridade: Quando um órgão de controle consegue otimizar a fluidez do tráfego aéreo sob sua jurisdição, todos agradecem: a família que aguardava ansiosamente a visita do ente querido, a empresa que ansiava pela entrega da carga, o executivo que precisava chegar logo em São Paulo e concretizar uma transação milionária; o paciente que aguardava entre a vida e a morte a chegada de um coração para transplante.

Em decorrência da relevância do serviço prestado, usuários do sistema (as próprias empresas aérea entre eles) pagam altas taxas para sua utilização, fazendo com que muito capital circule na atividade econômica em questão.

Agora vejamos: o número de profissionais no setor seria demasiadamente alto, a ponto de impedir uma remuneração condizente? Negativo: entre militares (Força Aérea) e civis (Infraero), há cerca de apenas quatro mil controladores de tráfego aéreo no Brasil.

E quanto à oferta destes profissionais no mercado? Basta considerar que, normalmente, a capacitação básica (teoria e treinamento em simuladores) demora em torno de um ano, sendo necessário ainda estágio prático de aproximadamente mais seis meses, e veremos que a regra mundial é a escassez desses trabalhadores – especialmente porque, em países onde tal atividade é levada mais a sério, o índice de reprovação dos aspirantes é bastante alto, em decorrência da exigência de habilidades motoras e características psicológicas singulares.

Bom, tudo leva a crer, até aqui, que um controlador de tráfego aéreo no Brasil deveria e poderia receber um polpudo salário, até como forma de compensar o estresse de uma das profissões mais desgastantes que existem. Na Espanha, por exemplo, tais profissionais recebem mais que o dobro da média salarial da população. Todavia, na FAB, um profissional do ramo recebe o mesmo que um Sargento da banda de música responsável por tocar o bumbo, e a realidade na Infraero não é muito diferente. O que teria dado errado em nossa análise então?

A origem desta distorção está na hierarquia militar da Aeronáutica: como os controladores daquela instituição são Sargentos, é tido como inadmissível que sejam remunerados com soldo de Brigadeiro-do-Ar, sob o argumento que tal prática representaria quebra de hierarquia. Desta forma, com os salários de boa parte desses profissionais (em torno de 80% do total no país) pressionados artificialmente para baixo, os controladores da Infraero acabam precisando aceitar remunerações menores do que poderiam receber também.

Aliás, como o controle do tráfego aéreo, no Brasil, é atividade exclusiva do Estado, estes trabalhadores sequer tem a opção de, insatisfeitos com a relação de emprego, procurarem melhores oportunidades na “concorrência”, porque ela não existe. O fato de todos eles serem, obrigatoriamente, servidores ou empregados públicos, também gera outro conflito: tanto aqueles que laboram em órgãos cujo trabalho é extremamente complexo (como o Controle de Aproximação de São Paulo) e os que trabalham em locais onde o volume de tráfego é bem mais reduzido, percebem a mesma remuneração, visto que ocupam os mesmos cargos. Adivinhe se, neste cenário, alguém quer trabalhar em São Paulo? Obviamente, este fator faz com que justamente tais órgãos fiquem mais desfalcados de pessoal, comprometendo a segurança de quem voa.

Ressalte-se que o movimento reivindicatório que quase parou o país entre 2006 e 2007 não tinha como mote tão somente essa disparidade remuneratória, mas também clamava pela atualização dos equipamentos utilizados para visualização (radares) e comunicação ar-solo (frequências de rádio), e reclamava do baixo efetivo de controladores. A Aeronáutica, não estando submetida ao crivo de consumidores (como as empresas privadas estão), relegou os órgãos de controle, durante décadas, ao abandono, alocando recursos e pessoal em outros setores não afetos ao tráfego aéreo. A qualidade do serviço de proteção ao voo caiu muito neste período – mas isso não chega a ser motivo de dor de cabeça para um órgão público, não é mesmo?

Eis porque o principal objetivo dos “sargentos aloprados” (que nada mais fizeram do que passar a seguir padrões de segurança previstos e, até então, ignorados em nome da continuidade do serviço) era, justamente, a desmilitarização do setor (eufemismo para privatização), com a decorrente implantação de modelo semelhante ao adotado nos EUA, Inglaterra, Austrália… enfim, qualquer país poderia servir de paradigma, desde que não fossem Coréia do Norte, Eritréia, Etiópia e Somália – únicos do mundo, ao nosso lado, onde existe controle do tráfego aéreo civil sob responsabilidade de militares.

Enfatizo ainda que a crise aérea de 2006/2007 não se tratou de um caso típico de trabalhadores servindo como massa de manobra de sindicatos corporativistas. A uma, porque militares são proibidos por lei de constituírem sindicatos. A duas, porque as associações de controladores de voo, tanto de civis quanto de sargentos, manifestaram-se, à época, contra qualquer espécie de operação padrão. A bem da verdade, aquele movimento foi genuinamente espontâneo, sem nenhuma espécie de organização ou autoridade central reconhecida, apenas como reflexo direto desta ingerência estatal na livre formação de preços (salários) do mercado.

A consequência desta conjuntura toda, fortemente sentida nos órgãos de tráfego aéreo do Brasil, são os altíssimos índices de rotatividade, em uma atividade cuja complexidade justificaria, no mínimo, mesclar experiência com juventude. Experimente visitar uma torre qualquer no Brasil e constate, por si mesmo, o quão baixa é a média de idade dos controladores de tráfego aéreo. E não duvide: muitos estão apenas usando o trabalho como trampolim para empregos melhor remunerados.

Querem um bom exemplo? Igor Romário de Paula, um dos Delegados que compõe a equipe de investigação da Polícia Federal na operação Lavajato, trabalhou no Centro de Controle de Curitiba (Cindacta II) como operador de radar. Foi colega de profissão, na ocasião, deste escriba que vos fala, por sinal. E esse baixo tempo de permanência na profissão é um problema que não será equacionado enquanto o Estado brasileiro não parar de interferir na formação do “preço do trabalho” (o bom e velho salário) do controlador de tráfego aéreo. Até lá, não adianta apenas cobrar profissionalismo sem a devida contraprestação pecuniária. Como dizem os americanos, “show me the money”, ou então tchau!

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O Monopólio do MMA?!

UFC - Monopoly

Quando um determinado produto ou serviço é confundido com sua principal marca fornecedora, como já vimos ocorrer com esponjas de aço e geladeiras, é porque um contingente muito grande de consumidores foi beneficiado por ela, a tal ponto que a maioria deles sequer considera a hipótese de apelar para a concorrência (ou mesmo lembra que existem opções). Afinal, conforme pressupõe a teoria da utilidade marginal, a valoração de qualquer bem parte do agente de mercado (o indivíduo) em uma compilação de utilidade (a importância subjetiva que o indivíduo atribui ao bem) e sua escassez no mercado. Portanto, a princípio, uma empresa que logra mesclar sua marca ao próprio conceito do bem fornecido agradou muito seus clientes, mormente com a relação custo-benefício que a eles ofereceu. E com o Ultimate Fighting Championship (UFC), o evento de lutas que caiu definitivamente no gosto dos brasileiros há cerca de cinco anos, não foi diferente.

Aliás, como todo monopólio natural, seus administradores enfrentaram críticas severas devido à larga fatia do mercado que ocupam, mas tais vozes vêm gradativamente definhando, e admitindo o sucesso do verdadeiro show proporcionado pelos irmãos Fertitta.

A liga presidida desde 2002 pelo ex-agente de lutadores de boxe Dana White revolucionou a indústria esportiva, partindo de uma modalidade de luta que, literalmente, não existia, para uma franquia avaliada em U$4 bilhões, superando, inclusive, os números do tradicionalíssimo Boxe. É quase automático associar a imagem do próprio esporte (Mistura de Artes Marciais – MMA) ao UFC, como se ambos fossem uma coisa só.

Todavia, essa história de sucesso, como quase todas as outras, é pontuada por momentos sombrios, em que tudo levava a crer que o torneio que mais parecia um filme do Van Damme fosse ser até mesmo proibido. E compreender por que o UFC hoje domina tão amplamente esse segmento ajuda a entender porque o Estado não deve preocupar-se com a formação de monopólios – aliás, já seria de grande valia se ele mesmo não formasse monopólios artificiais, por meio de regulações direcionadas a determinados empresários.

A história do UFC tem início com uma viagem do brasileiro Rorion Gracie aos Estados Unidos, onde ele não apenas cria o evento juntamente com sócios americanos, como também inventa o ringue de oito cantos (octagon) e dá o pontapé inicial, em 1993, ao “vale-tudo” profissional, como era conhecido na época (No Rules Fighting). Tudo ia muito bem nos primeiros anos, mas o problema era que, do ponto de vista comercial, as lutas começaram a ficar desinteressantes: não eram divididas em rounds, não havia limite de tempo, não havia categorias por peso, golpes toscos aconteciam (como puxadas de cabelo), e havia clamor popular pela proibição do luta, devido à selvageria (intencional) de alguns confrontos. Entrementes, como não havia barreiras à entrada de outros investidores na atividade econômica, outras ligas começaram a ser formadas, onde se destacou a japonesa Pride, a qual arrebanhou, inclusive, diversos lutadores do UFC – e junto, claro, milhões de seus fãs.

Tudo levava a crer que, como deve ocorrer em um livre mercado, a liga americana ou iria falir, ou seria comprada, antes da falência, por um de seus concorrentes mais eficientes. Mas eis que ocorre o tipping point: o brasileiro, resistente em promover mudanças que visavam tornar mais rentáveis os eventos (possibilitando pagamento de maiores bolsas aos lutadores e reinvestimento em marketing e estrutura), vendeu sua participação no negócio, e abriu espaço para que Dana White passasse a gerir com mais profissionalismo a franquia.

 A partir de então, inicia-se uma nova fase para o UFC, com o nível das lutas melhorando substancialmente, e com o advento do “circo” da liga, quando o evento torna-se internacional e passa a montar seu palco em quase todos os continentes. Um divisor de águas é a grande sacada da organização em 2005 que, aproveitando a onda de reality shows que tomava conta dos Estados Unidos, criou o The Ultimate Fighter, show de TV que colocava em uma mesma casa lutadores amadores que lutavam (de verdade) por um contrato com o UFC. O público americano que sequer era aficionado por esportes fez o MMA bater picos de audiência inimagináveis, e, claro, permitiu uma inédita capitalização da liga. Resultado: ocorre exatamente o oposto do que se esperava, quando, em 2007, Dana White compra os direitos de realização do Pride, e extingue o evento japonês, absorvendo todos os seus principais lutadores.  

O mesmo ocorre quando o UFC, nos anos seguintes, adquire e conglomera outros dois eventos americanos que despontavam na cena da luta: o WEC (do brasileiro José Aldo) e o Strikeforce (do lutador Pezão). Ali ficava clara a força econômica da liga dos irmãos Fertitta, e foi então que as críticas se intensificaram: como ficariam os fãs que preferiam assistir as ligas que foram compradas? Seriam obrigados a assistir ao monopolista UFC? Dono de tal condição, os preços do pay-per-view iriam disparar? A falta de concorrência faria o nível das lutas cair?

Quem arguiu tais questões não entendeu nada das lições mais comezinhas de economia: os lutadores do UFC transformaram-se em superstars (com direito a contratos de cifras astronômicas, com participação nos lucros e cotas de PPV); a organização passou a realizar até mesmo três eventos por semana, em diferentes lugares do mundo; o número de lutadores e demais funcionários contratados quase triplicou; a integridade física dos atletas passou a ser privilegiada como nunca; os preços dos ingressos ficaram, de fato, altos (devido à alta procura), mas costumam esgotar em menos de meia hora; e a assinatura do canal que transmite o UFC custa em torno de R$70 – dez reais a menos do que custa a assinatura dos jogos do campeonato brasileiro. Além disso, diversas cidades do globo desejam muito receber edições do evento, que costumam atrair muito dinheiro na semana de sua realização e lotar a rede hoteleira.

Mas por que o UFC não abusou de seu direito de “monopolista”? Eu me arrisco a responder: porque tem consciência de que ninguém coloca uma arma na cabeça do consumidor e o obriga a comprar nada. É muito fácil para os fãs do esporte simplesmente pararem de assistir às lutas e procurarem alternativas de entretenimento (as quais existem aos borbotões), motivo pelo qual a busca por agradá-los é constante – normalmente, um lutador que perde três contendas seguidas é desligado temporariamente da liga, acirrando a disputa e aumentado a qualidade das apresentações.

 Além disso, ainda existem ligas menores tanto na América quanto em outros países (tais como o Bellator e o Jungle Fight), os quais funcionam como um contraponto ao poderoso UFC, tal como os mercadinhos de bairro estão para as grandes redes de supermercado: existe uma clientela específica para ambos, as quais buscam nutrir expectativas diferentes (enquanto uns preferem estabelecimentos próximos e encontrar produtos da região a preços mais altos, outros se dispõem a rodar até mais longe e adquirir produtos mais baratos e comprados pelo comerciante em larga escala), e as mesmas pessoas, em momentos diferentes, podem optar por um ou outro. Ou seja, ninguém é obrigado a assistir ao UFC, e caso prefira pagar menos e assistir a eventos ao vivo com frequência (embora com lutas, em tese, de menor qualidade), assim pode fazê-lo.

Outra censura que costuma ser feita ao UFC é que seus dirigentes costumam exigir contratos com cláusula de exclusividade, ou seja, o lutador não pode lutar em outras organizações enquanto a relação jurídica entre ambos estiver vigendo. Bom, os atletas parecem não se importar muito com tal condição, pois batalham arduamente por uma vaga na liga. Vai ver que, ainda assim, vale (e muito) a pena.

Outro benefício desta concentração de mercado nas mãos da mesma liga esportiva: se todos os lutadores de alto nível estão atrás da mesma cortina, então a probabilidade de eles lutarem entre si é cada vez maior. É só lembrar como o boxe quase perdeu a oportunidade de realizar o duelo entre Manny Pacquiao e Floyd Mayweather – tudo porque os dois haviam firmado contratos com emissoras diferentes.

Recentemente, porém, vem sendo travada uma disputa judicial nos tribunais dos EUA entre atletas que já saíram do evento e sua organização, por suposta infração a leis antitruste daquele país. Acredito que seria bem mais produtivo se tais reclamantes, em vez de espernearem, fizessem como o lutador aposentado Wallid Ismail, o qual, tão logo pendurou as luvas, criou a maior liga de MMA da América Latina – gerando empregos e riqueza.

A luta (com o perdão do trocadilho) por este nicho de mercado, durante os últimos 23 anos, seguiu todas as regras do livre mercado e beneficiou especialmente aqueles que consomem o valor gerado pelo UFC (entretenimento). Dana White e os irmãos Fertitta não precisaram de intervenção estatal que lhes beneficiasse em sua jornada, evitando a concorrência. Ao contrário: o Estado de Nova York, contrariando a vontade da maioria de sua população, é um dos três nos Estados Unidos que não permite a realização de eventos de MMA. Até mesmo cidades do interior de SC e de SP já foram agraciadas com os anúncios inolvidáveis de Bruce Buffer. Não é possível que os Nova-iorquinos sejam “protegidos” desse esporte para sempre.

Em uma analogia com a nossa inestimada CBF, levanto a seguinte questão: existem barreiras legais ou estruturais à criação de novas ligas de clubes de futebol no Brasil? Certamente não, e justamente por isso vários clubes insatisfeitos estão tentando organizar a chamada “Primeira Liga”, que já teve sua primeira edição em 2016, e em 2017 já contará com mais participantes e datas reservadas. Se a CBF cumprir sua promessa e punir os clubes que desertarem, provavelmente ficará a ver navios. Ou não. E, nesse último caso, nenhum dirigente de clube de futebol poderá voltar a reclamar de supostos favorecimentos por parte da entidade máxima brasileira. Simples assim: não gostou, faz o seu. Ou não reclama.

Um último aviso aos “altruístas” que consideram esportes de luta uma pancadaria, que deveria ser proibida: a maioria dos lutadores é oriunda de famílias de baixa renda, e encontram na luta a ponte para uma vida de sucesso. E se eles submetem-se ao risco de serem atingidos com golpes até mesmos mortais por livre e espontânea vontade (sendo muito bem remunerados para isso), não cabe ao Estado impedi-los, ou então deveríamos proibir, pelos mesmos motivos, o paraquedismo, o alpinismo, a Fórmula 1, e muitos outras modalidades. Os fãs de MMA agradecem, mas dispensam tal “proteção” estatal.

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