Quem é a Vítima Mesmo?

Assalto

Foi uma carta de devolução de carro roubado: mais uma daquelas jabuticabas difíceis de explicar para estrangeiros. Fato pouco comum, e que requer que muitas observações sejam feitas. Afinal, em poucas linhas, registra-se o uso de muitos conceitos incrustados no inconsciente coletivo do brasileiro, e que nem a fórceps poderão ser arrancados se não apontarmos suas incongruências:

1) “… sou vítima da sociedade…” “… Vou continuar procurando emprego…”.

Dentro do contexto, o rapaz deixa claro sua noção de que “a sociedade” de que é vítima não lhe permite arrumar emprego para sustentar sua família. Nitidamente, ele refere-se àqueles cidadãos que possuem mais bens acumulados do que ele, atacando a desigualdade de renda – o que, forçosamente, inclui a “linda” moça assaltada no rol de culpados por sua situação periclitante.

Possivelmente ele imagine que, durante o processo de redistribuição de renda, os montantes de recursos que tramitam pelas estâncias do Estado advêm apenas das camadas mais abastadas. Todavia, essa ideia somente é verdadeira em relação a uma fração muito pequena daqueles, e ela acaba servindo para ofuscar o fato de que, em sua maior parcela, o poder de compra que é remanejado vem das mesmas camadas sociais que o recebem via redistribuição.

Ele não cogita, porém, a hipótese de que, provavelmente, o avanço desmesurado do Estado tributador sobre a iniciativa privada, estrangulando-a, impossibilitando a poupança e o reinvestimento em aumento de produtividade, é que seja o verdadeiro empecilho para que ele possa trabalhar. Não cogita tampouco que os “direitos trabalhistas”, irrenunciáveis e inegociáveis entre empregador e empregado, também estejam opondo-se entre ele e um salário mensal fixo – com os sindicatos e sua “proteção aos trabalhadores” reforçando essa barreira.

2) “… sou vítima da sociedade…”.

Eis o resultado da campanha massificada da mídia, reforçada nas salas de aula, de que a condição social precária do cidadão justifica cometer crimes, inclusive subtrair coisa móvel por meio de grave ameaça – definição do código penal para roubo. O rapaz ainda vai mais longe: enfatiza que, de acordo com sua consciência, seria atitude natural seguir roubando, mas ele, como todo ser humano magnânimo deveria proceder, decidiu “quebrar o galho” das demais pessoas e abortar a missão de tornar-se um bandido. Devo dizer “obrigado”, eu suponho, e pedir escusas por minha parcela de culpa por sua pequena aventura fora-da-lei.

3) “… que o susto sirva de exemplo pra nós dois…” “… nunca deixe a chave na ignição…”.

Outra típica inversão de valores da atualidade: o cidadão que dirige despreocupado seu carro, que caminha pelas ruas tarde da noite tranquilamente, ou a mulher que resolveu usar uma roupa curta, talvez eles todos precisem de um “susto” para parar de “dar mole” para o azar. Quem sabe, então, eles aprendam procedimentos de guerra, que devem ser adotados em plena luz do dia, dentro do perímetro urbano. E aproveitem a chance e tomem prumo! Na próxima, talvez não tenham tanta “sorte”, hein…

4) “… abandonei ele (o carro) na rua primeiro de maio…” “… vou abandonar ela (a mochila) perto da La Salle…”

Impressionante o rapaz não ter nenhum receio que a polícia possa encontrar digitais suas na mochila ou no carro. É a total descrença no poder de “enforcement”, da capacidade do Estado impor o cumprimento das leis. Fica a sensação de que, no evento, a relação é restrita entre vítima e bandido, sem que ele nem mesmo considere que “mais alguém”, também conhecidos como policiais, possam estar lendo a carta. Ingenuidade? Só de quem pensa que pode ser ingenuidade. E é justamente essa sensação de impunidade a mola propulsora da quase totalidade dos crimes cometidos no Brasil.

5) “… A arma era de brinquedo…”.

Emprego de arma de brinquedo não qualifica o delito de roubo, desde que o Superior Tribunal de Justiça cancelou sua súmula nº 174. Ou seja, o que parece, à primeira vista, uma forma de aliviar a gravidade da situação para tranquilizar a vítima (você nunca correu risco de morte), constitui, ao mesmo tempo, subterfúgio para abrandar a pena, caso ele venha a ser capturado pela polícia. Ademais, de brinquedo ou real, a arma constitui ameaça de violência, que pode, dependendo da condição de saúde do indivíduo abordado, leva-lo ao óbito por infarto ou reação semelhante do organismo. Ou seja, de brincadeira esse roubo não teve nada – nem mesmo a revelação de que a arma era de brinquedo.

6) “… A mulher assaltada não culpa o ladrão pelo fato…”.

Uma vez mais, a prática de diluir a culpa do indivíduo pelo cometimento de atos ilícitos por toda a sociedade, de relativizar a culpa dos “oprimidos socialmente”. Eis o preço de viver em uma cultura coletivista, onde o mérito é sorte, e a desobediência às leis é fado. Um misto de síndrome de Estocolmo com sentimento de elite culpada, e aí está: somos todos culpados. Passa para cá meus 1/200.000.000 avos de responsabilidade por este crime logo!

7)“… Você é muito linda…”

O cara é casado e tem filhos. A moça é casada e tem filhos. Ou seja: mais respeito, rapá! Já que disse que resolveu andar na linha, leva o pacote completo, e para de dar em cima de mulher casada. E aproveita e não vota nunca mais na esquerda, se quiser arranjar emprego em breve.

E vai com Deus!

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