The (Brazilian) Walking Dead:

Sophia e Rick

Um dos principais conflitos que permeiam a 2º temporada do seriado “The Walking Dead” (como esse episódio foi ao ar em 2011, creio que quem gosta da série já assistiu, e quem ainda não assistiu não gosta da série; então não é spoiler) diz respeito ao que fazer quando parentes e pessoas amadas são mordidos por zumbis: eles devem ser executados para que não ponham em risco as demais pessoas? Ou podem ser mantidos trancafiados, na esperança de que uma cura, eventualmente, seja desenvolvida?

Como a vida imita a arte, e o Brasil sabe emular tragédias da ficção como poucos diretores de Hollywood fariam, nós temos conflitos do mesmo gênero por essas bandas: manter criminosos condenados por crimes dolosos contra a vida trancafiados ou executá-los? Policiais, durante confrontos com bandidos, devem disparar armas letais? Ou o pior dos dilemas: o que fazer se estivermos falando de adolescentes ou crianças cometendo delitos? O detalhe mórbido é que, no seriado, (quase) ninguém cogita deixar os zumbis soltos na rua. Já no Brasil, deixar pessoas que fazem coisa bem pior do que morder andar tranquilamente em meio aos cidadãos de bem é costume antigo.

Sugiro apreciarmos a questão proposta, inicialmente, com uma analogia. Se uma casa começa a pegar fogo, em virtude de uma faísca causada por instalações elétricas precárias, o proprietário deve, antes de qualquer outra medida:

A) Apagar o incêndio, usando extintores, água e chamando os bombeiros;

B) Chamar um eletricista para checar todos os circuitos elétricos da residência, a fim de prevenir futuros incêndios.

É da sabedoria popular que “mais vale prevenir do que remediar”. Todavia, depois de certo ponto, a opção de prevenir não mais existe. Se o fogo já iniciou, é necessário extingui-lo. Posteriormente, aí sim, é salutar adotar medidas preventivas, de modo a impedir que novos incêndios ocorram.

O mesmo raciocínio, quando direcionado à aplicação da justiça penal, recomenda fortemente que façam parte da agenda do Estado medidas que visem evitar que pessoas entrem para o mundo do crime, mas que, por outro lado, o ordenamento jurídico do país conte com normas que puna criminosos com rigor – principalmente a fim de evitar a sensação de impunidade, a qual pode levar as pessoas a acreditarem, como tristemente constatou Glória Perez, que “todos têm o direito de matar uma vez”. Ou ainda conferir aos menores de 18 anos o status de 007, “com licença para matar”.

Mas que tipo de criminoso deve ser considerado como uma casa em chamas?  Existe aí, por certo, uma zona cinzenta, onde haverá divergência de opiniões. Mas aqueles que cometem crimes hediondos, como atear fogo em pessoas vivas, serão (ou deveriam ser) considerados, de forma unânime, como casos em que a “prevenção” (leia-se: educação, geração de empregos, transmissão de valores familiares) falhou miseravelmente.

Mas tal fracasso não implica em dizer que o Estado e a sociedade devam desistir do trabalho de prevenção. Significa, sim, que tais indivíduos já foram “mordidos” pela criminalidade, e não mais devem ser tratados como aqueles que cometem delitos de menor repercussão. Nestes casos, considerar punições como pena de morte e prisão perpétua não é exagero, de forma alguma.

Aliás, costuma nos causar estranheza o fato de que, em feiras de armas nos EUA, é possível comprar até mesmos fuzis, e levar para casa no mesmo dia. Não nos esqueçamos de que, naquele país, a lei penal é muito mais rigorosa do que a nossa (inclusive contando com a pena capital), e, por isso, há uma sensação generalizada de que, a princípio, as pessoas compram armas tão somente para sua própria defesa. Não à toa, mesmo com mais armas de fogo (na mão dos cidadãos de bem, pelo menos), o número de mortes com uso destes artefatos é inferior ao registrado no Brasil – que conta com lei do desarmamento e tudo. Não é de estranhar que ladrões de carro cheguem ao ponto de retornar para devolver o bebê para a mãe: é o medo de ser considerado um “zumbi” na América.

http://oglobo.globo.com/mundo/ladrao-rouba-carro-mas-volta-para-devolver-bebe-que-estava-dentro-veja-video-12556585

E antes que alguém se lembre dos malucos que invadem escolas atirando… bom, são malucos de fato, e se não tivessem acesso a armas, promoveriam tais carnificinas de outras formas, como preparando bombas caseiras. Não são os carros que matam nas estradas, mas sim quem pisa no acelerador. Da mesma forma, mata quem puxa o gatilho, não o revólver.

Para casos menos graves, claro, é possível e desejável reintegrar as pessoas à sociedade – objetivo que sempre esbarra nas verdadeiras masmorras brasileiras em que costumam ser atirados, de forma indiscriminada, desde batedores de carteira até serial killers. Neste cenário, urge a privatização dos presídios, onde as duas experiências no Brasil mostram que este é o caminho, especialmente pelos índices de reincidência – 6%, enquanto em outras penitenciárias do país, o número gira em torno de 70%.

Agora voltemos à figura no início do artigo. Consideremos que, em vez de Rick apontando a pistola para Sophia, fossem o policial e a criança de 10 anos envolvidos no polêmico caso ocorrido em São Paulo, e façamos a devida adaptação: o menor infrator não era um zumbi, mas uma pessoa armada (acredite, disparos feitos por uma pessoa de 10 ou 70 anos ferem da mesma forma). Certamente, será muito fácil elucubrar inúmeras soluções que poderiam ter sido adotadas pelo agente da lei que não redundassem na morte da criança – especialmente sentados confortavelmente no sofá de casa.

Mas quantos de nós seríamos capazes de nos colocar no lugar do PM, naquele verdadeiro “impasse mexicano”, em que um pai de família está trocando tiros? Como evitaríamos puxar o gatilho? Batendo em retirada? Não adianta: a casa está em chamas, e é tarde para prevenir. Culpar o policial, neste conjuntura, é como acusar o bombeiro de ter derrubado a casa com o jato de água.

Policiais matam dolosamente? Sim, e muitos casos já foram apurados – o que não permite uma inversão de valores que os coloque como responsáveis pela violência urbana, a qual cresce APESAR do trabalho da polícia. Não percamos de vista que o menino não tem culpa de ter virado um marginal, mas nem por isso os demais cidadãos devem ficar expostos a seus atos.

Interessante notar que a delegada responsável pelo caso alegou que o menor vitimado veio de uma “família destroçada”. Estou de pleno acordo: é necessário estimular, cada vez mais, os valores familiares, e combater a contracultura que tenta, a todo custo, ridicularizar as tradições conservadoras. Amor paterno/materno se prestam muito bem a evitar “mordidas de zumbi” e a amansar o espírito do homem – e até dos ursos:

https://www.noticiasaominuto.com.br/mundo/232532/familia-russa-vive-com-ursinho-de-136-quilos-ha-23-anos

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5 comentários sobre “The (Brazilian) Walking Dead:

  1. A pena deve ser proporcional ao crime. E a garantia da punição adequada pelo crime deve sempre vir na frente da suposta tentativa (ou chance) de reabilitação do apenado. A condenação de menores de 18 anos é, antes de tudo, um caso de se fazer justiça, não uma medida de segurança pública (como tentam nos fazer crer os defensores dos “meninos”).

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